Clube do Leitor: Depois de uma trajetória acadêmica marcada por pesquisas profundas sobre inclusão, exclusão e preconceito, Escolhas e Destinos marca sua estreia na ficção. O que a levou a escolher a literatura como novo território de expressão e o que a ficção permitiu dizer que a escrita científica não comportava?
Maria Nivalda: Minha trajetória acadêmica contribuiu para a busca de compreensão e análise de características individuais, sociais e políticas complexas relacionadas a fenômenos como a exclusão e o preconceito. Dedico-me à pesquisa desde 2002, com resultados publicados em inúmeros artigos científicos no Brasil e no exterior, além de capítulos e livros acadêmicos. No entanto, a escrita científica impõe limites formais importantes à forma de relatar os achados das pesquisas, além de atingir um público bastante específico. Meu grande desejo era que esses e outros temas pudessem alcançar também o público leigo, proporcionando-lhe uma experiência de leitura prazerosa, marcada pela emoção e pela possibilidade de reflexão. A literatura foi o caminho que escolhi para dar corpo e voz às ambiguidades e contradições características de fenômenos humanos, permitindo que fossem sentidas e refletidas, e não apenas analisadas. Assim, a literatura surgiu para mim como um espaço de experimentação e liberdade.
Clube do Leitor: A protagonista, Maria — apenas Maria — atravessa décadas de transformações sociais, familiares e íntimas. Em que medida essa personagem dialoga com histórias reais de mulheres brasileiras que, por muito tempo, tiveram suas vozes silenciadas ou secundarizadas?
Maria Nivalda: Maria é uma personagem construída a partir de muitas escutas. Ela não representa uma mulher específica, mas condensa experiências comuns a gerações de mulheres brasileiras que atravessaram profundas transformações sociais enquanto lidavam, muitas vezes em silêncio, com expectativas familiares, renúncias e desigualdades. Seu percurso dialoga com essas histórias reais justamente por tornar visível aquilo que, durante muito tempo, permaneceu naturalizado.
Clube do Leitor : O livro traz o Grupo das Marias como um espaço simbólico de partilha, escuta e reconstrução. Qual é o papel do coletivo feminino na cura das dores individuais e por que o apoio entre mulheres se mostra tão central na narrativa?
Maria Nivalda: O Grupo das Marias simboliza um imaginário possível construído a partir da palavra, do vínculo e da reflexão sobre o que cada uma delas fez com suas vidas, suas escolhas e seus destinos. A narrativa deixa antever que as dores individuais, as possibilidades de mudança e de ressignificação do vivido não ocorrem apenas no plano íntimo, mas também no encontro com o outro. O apoio entre mulheres se torna central porque permite reconhecer a dimensão social do sofrimento, abrindo possibilidades para novas formas de existência e pertencimento.
Clube do Leitor: Ao narrar o adoecimento de um filho, a experiência da deficiência, a separação e a busca por autonomia, o romance toca em temas profundamente humanos e sociais. Como sua formação em Psicologia e seus estudos sobre inclusão influenciaram a construção emocional e ética dessa história?
Maria Nivalda: Minha formação em Psicologia me ensinou, acima de tudo, a escutar o sofrimento sem reduzi-lo a explicações simplificadoras. As pesquisas que realizei sobre inclusão contribuíram para uma atenção ética às diferenças, evitando leituras moralizantes ou idealizadas, pois é no encontro com o outro que nos transformamos. Especialmente em relação à deficiência, a narrativa se propõe a fazer pensar sobre o encontro com a diferença explicitada em formas atípicas de ser e estar no mundo. Também as questões da separação e da busca de autonomia refletem um convite a pensar sobre preconcepções inconscientes aninhadas dentro de nós. Esses referenciais orientaram a construção do romance, buscando tratar temas delicados com cuidado, complexidade e respeito às singularidades das experiências vividas, mas mantendo a simplicidade da forma narrativa.
Clube do Leitor: Entre perdas, renascimentos, amor e perdão, Escolhas e Destinos parece afirmar que a vida é feita de encruzilhadas. Para o leitor que chega ao final do livro, qual reflexão você espera que permaneça sobre escolhas, destino e a possibilidade de recomeçar?
Maria Nivalda: Espero que permaneça o convite à reflexão sobre as escolhas e os destinos que construímos ao longo da vida, não como um apelo ao gesto heroico, mas com a consciência de que ninguém escolhe a partir de um terreno neutro. Que o leitor possa pensar sobre suas próprias escolhas e seus possíveis destinos ao longo da caminhada, e não apenas quando olhar para trás, ao final do percurso da vida.

