A mecânica do asfalto: entre o gênero e a máquina
A obra de Vanderson Castilho Munhoz, Garra de campeã, apresenta-se como uma incursão ficcional em um território historicamente demarcado pelo signo do masculino: o automobilismo de alta performance. Através da trajetória de Bárbara Ferreiro, o autor não apenas narra uma sucessão de etapas da Stock Car, mas constrói um painel sobre a resiliência feminina diante de estruturas de poder profundamente enraizadas.
O eixo central da narrativa desloca-se da simples competição esportiva para o desafio da conciliação. Bárbara não é apenas uma piloto; ela é uma mulher que retorna às pistas após a maternidade, enfrentando o que o texto desenha como um duplo escrutínio: o da competência técnica e o da fidelidade aos papéis domésticos.
A escolha do autor por situar o início da obra em um ambiente de hospital-maternidade é sintomática: o “bandeira verde” da vida de Bárbara é indissociável de sua condição biológica e social de mãe, estabelecendo desde cedo o conflito entre o desejo individual e a expectativa coletiva.
Do ponto de vista formal, a narrativa adota um ritmo acelerado, mimetizando a urgência das pistas. A linguagem é direta, por vezes técnica, mas permeada por uma sensibilidade que humaniza a figura do “ídolo”. Munhoz utiliza a estrutura das etapas do campeonato para organizar o tempo da ação, criando um encadeamento que alterna entre o asfalto e os bastidores, o espaço público da fama e o espaço privado do trauma.
É nas tensões entre o texto e o contexto que a obra ganha sua maior densidade crítica. A figura de Bárbara é constantemente desafiada por vozes dissonantes: chefes de equipe autoritários, fofocas midiáticas e a ausência de um suporte emocional estável em seu casamento. A traição do marido e a necessidade de reafirmar sua autoridade no cockpit transformam o carro de corrida em uma armadura e, simultaneamente, em um palco de exposição. A forma literária aqui, ao abraçar o hibridismo entre o real e o fantástico (como nota o próprio autor no prefácio), permite que Bárbara navegue por situações de machismo estrutural sem perder sua “garra”, termo que o título eleva à categoria de conceito estético e ético.
As referências a pilotos reais, como Bia Figueiredo, servem como uma ancoragem histórica que valida a ficção, mas também recordam ao leitor que a inclusão plena da mulher no automobilismo ainda é um projeto em construção. A obra de Munhoz situa-se nessa fenda: entre a homenagem àquelas que abriram caminho e a denúncia das barreiras que ainda persistem.
Garra de campeã transcende a literatura juvenil ou de nicho esportivo ao propor uma reflexão sobre a identidade em trânsito. O livro provoca no leitor contemporâneo uma percepção aguçada sobre os custos da excelência para as mulheres em ambientes hostis. A obra de Vanderson Castilho Munhoz é, em última análise, uma defesa da paixão como motor de resistência política e social.
A relevância da obra reside em sua capacidade de transformar o dado técnico da Stock Car em matéria poética de superação. Bárbara Ferreiro termina sua saga não apenas como uma campeã de troféus, mas como uma personagem que, através de suas ambiguidades e sofrimentos, consegue “mostrar a cara” em um mundo que prefere o silêncio do capacete. É uma leitura que, para além da adrenalina, convoca à reflexão sobre quais são as verdadeiras curvas que definem o caráter de um sujeito em nossa sociedade.
Marília Costa
Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia

