Clube do Leitor: O que a motivou, pessoal e academicamente, a escrever Abolição Estigmatizada?
Iná do Carmo Almeida Nascimento: Tenho três motivos principais. O primeiro nasceu da minha atuação profissional como advogada, acompanhando casos e presenciando de perto a realidade dos presídios do Sertão, especialmente na busca pela liberdade condicional de pessoas privadas de liberdade. Ali, a teoria encontrava o concreto — e o concreto tinha cor. O segundo surgiu durante o mestrado, quando li a obra Encarceramento em Massa, de Juliana Borges. A leitura, com seu viés racial e sua análise sobre gênero e números do sistema penal, ampliou minha percepção sobre a seletividade racial do encarceramento. O terceiro vem da minha trajetória como professora de História. Ao ensinar sobre a abolição, sempre me inquietou a pergunta: o que aconteceu com os ex-escravizados depois de 1888? Onde estavam as políticas de inclusão? Essa inquietação me levou, ainda em 2007 e 2008, a desenvolver o projeto “Preto no Branco” com estudantes do ensino fundamental da rede estadual, trabalhando letramento racial — embora, à época, esse termo ainda não fosse amplamente utilizado — em diálogo com a Lei nº 10.639/2003.
Clube do Leitor: Em que momento da sua trajetória profissional — como advogada, professora e pesquisadora — surgiu a necessidade de transformar essa pesquisa em livro?
Iná do Carmo Almeida Nascimento: Minha pesquisa foi árdua e, inicialmente, meu objetivo era apenas conquistar o título de Mestre em Direito. Confesso que, durante o processo de revisão, quando ouvi pela primeira vez que aquele trabalho deveria virar livro, não dei importância. Para mim, bastavam a defesa, a aprovação e o título. Mas algo começou a mudar quando percebi que minha pesquisa estava sendo citada em diversos trabalhos acadêmicos pelo país. Foi citada em estudos sobre política de drogas na Bahia, mencionada em pesquisa sobre encarceramento e gênero na UFPB, referenciada em dissertação sobre educação quilombola na UNIFAP e incluída no Sumário de Evidências da Fiocruz Pantanal, estudo nacional que analisou transtornos mentais e violências em unidades prisionais brasileiras. Esse levantamento analisou 1.999 publicações e, após rigor metodológico, selecionou apenas 36 estudos. Entre eles, estava o meu. Quando uma pesquisa deixa de ser apenas dissertação e passa a integrar um mapeamento nacional de evidências científicas, ela deixa de ser apenas acadêmica — torna-se instrumento de política pública. Foi nesse momento que compreendi que precisava transformar a pesquisa em livro. Não como realização pessoal, mas como compromisso público.
Clube do Leitor: Como foi o processo de construção do conceito de “abolição estigmatizada”? Ele surgiu ao longo da pesquisa ou já estava delineado desde o início?
Iná do Carmo Almeida Nascimento: O conceito foi sendo construído ao longo da pesquisa. Inicialmente, meu objeto era o direito à moradia e sua relação com o pós-abolição. No entanto, ao aprofundar as leituras — especialmente autores como Clóvis Moura e Alessandro Baratta, análises sobre a gênese racial da criminalidade —, percebi que o eixo do problema estava no controle penal. A escravidão terminou juridicamente em 1888, mas não houve políticas estruturadas de inclusão, reparação ou cidadania. Houve liberdade formal sem terra, sem trabalho, sem escola e sem proteção estatal. O que surge em substituição é um novo mecanismo de controle: o sistema penal. A senzala muda de nome. Passa a se chamar prisão. Hoje, mais de 60% da população encarcerada no Brasil é composta por pessoas negras. E a política criminal de drogas é um dos principais motores desse encarceramento. A sociedade que não ofereceu direitos passou a oferecer punição.
Clube do Leitor: A obra articula dados estatísticos e reflexão teórica. Como foi equilibrar esses dois caminhos na escrita?
Iná do Carmo Almeida Nascimento: A ciência precisa de dados para ganhar credibilidade. Eu precisava demonstrar, em números, aquilo que a teoria já indicava: a continuidade do controle dos corpos negros após a abolição. Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública e da Secretaria Nacional de Políticas Penais foram fundamentais para materializar a teoria. Os números não são frios; eles revelam padrões estruturais.
Clube do Leitor: Houve algum momento da pesquisa ou da redação que tenha sido particularmente desafiador para a senhora?
Iná do Carmo Almeida Nascimento: Delimitar o tema foi um grande desafio. Um problema leva a outro, e o risco era dispersar o foco. Aprender a concentrar o objeto de estudo exige maturidade acadêmica. Também foi desafiador reescrever trechos a partir das observações do orientador — processo que exige humildade intelectual.
Clube do Leitor: De que forma sua experiência na educação influenciou a linguagem e a estrutura do livro?
Iná do Carmo Almeida Nascimento: Eu reuni duas paixões: História e Direito. Minha formação como professora de História me permitiu analisar a abolição com olhar crítico e contextualizado, sem perder o fio condutor jurídico. O livro dialoga com o passado, mas sustenta uma tese constitucional e penal contemporânea.
Que tipo de leitor a senhora imaginou ao escrever essa obra? E qual reflexão espera despertar em quem a lê?
Iná do Carmo Almeida Nascimento: Imaginei e quero que leitores diversos se deleitem com o livro: operadores do Direito, professores, pesquisadores, estudantes e, especialmente, jovens negros. Falar de abolição estigmatizada é afirmar que a luta pela liberdade não terminou em 1888. Ela continua nos corpos que resistem, nas prisões superlotadas e na urgência de construir um modelo de justiça que não seja instrumento de exclusão, mas de dignidade. O livro é um convite a repensar a justiça criminal como política racial e a compreender que não existe neutralidade quando o encarceramento tem cor.

