Entrevista:
Clube do Leitor entrevista o escritor Ruan de Castro Medeiros

Entre ecos da história brasileira e a atmosfera poética de São Luís, o escritor De Castro apresenta em O Clube dos Poetas Clandestinos uma distopia em que escrever versos se torna um ato de risco e resistência. Na entrevista ao Clube do Leitor, o autor revela como memórias de sua terra, referências à censura durante a Ditadura Militar no Brasil e inquietações políticas contemporâneas deram origem à cidade fictícia de Santo Amaro, um cenário opressivo onde a poesia sobrevive na clandestinidade, sustentada pela amizade, pelo afeto e pela convicção de que a arte continua sendo uma das formas mais profundas de humanidade e rebeldia.

Clube do Leitor: De Castro, você menciona que começou a escrever porque ‘a realidade cotidiana não lhe bastava’. Em O Clube dos Poetas Clandestinos, a realidade é brutalmente privada da arte. Como foi o processo de criar esse mundo cinzento onde a poesia — algo tão humano — é vista como um crime? A ideia surgiu de um medo real ou de uma necessidade de subversão?

De Castro: A ideia nasce de vários elementos. Eu sou de uma cidade e estado onde historicamente sempre teve uma ligação muito forte com poetas e escritores. Isso favoreceu a ideia de um clube de poetas. Outro ponto a se destacar é o motivo dela, a poesia, ser proibida. Não precisamos ir muito longe na história brasileira, durante a Ditadura Militar por exemplo,tínhamos poetas sendo perseguidos e censurados. A poesia também é um ato político. E se colocarmos o contexto de quando eu comecei a escrever esse livro, o ano de 2018, onde vocêse via uma propagação e saudação, naquele momento político brasileiro, a governos autoritários, a personagens violentos, isso meio que se misturou com a poesia de alguma forma e fez nascer o título, então, a partir daí a história foi se desenvolvendo.    

Clube do Leitor: Você destaca que sua escrita é profundamente ligada à sua terra, São Luís, à sua arquitetura e ao seu povo. Como o cenário de uma cidade real, cheia de história e personalidade, serviu de alicerce para construir a fictícia e opressiva Santo Amaro? Podemos encontrar ‘ecos’ da sua ilha nas ruas clandestinas que seus personagens percorrem?

De Castro: Com certeza. São Luís é uma cidade de poetas, Ferreira Gullar, Nauro Machado, Gonçalves Dias (apesar de ter nascido em Caxias, tem forte ligação com São Luís), para ficar só nesses três e não fazer uma longa e consagrada lista. São Luís é uma inspiração para se criar Santo Amaro. Entendo que no processo criativo, Santo Amaro me pôde dar mais liberdade em uma série de fatores, como os povoados ao redor da ilha e outras pequenas cidades que aparecem no livro. No mundo real elas não existem geograficamente, então criar uma Santo Amaro a parti de uma São Luís me deu essa liberdade. Mas muita coisa tem forte ligação, como os casarões, as ruas, os bairros, o porto, as praias, o povo. Tem muita coisa de São Luís em Santo Amaro.

Clube do Leitor: Os sete membros do clube são descritos como misteriosos e complexos. Para um autor que começou a escrever influenciado por um amigo poeta, o quanto da amizade e da vida real você injetou na dinâmica desses sete rebeldes? Como foi construir a tensão entre o risco de serem pegos e a necessidade humana de compartilhar afeto através da poesia?

De Castro: O clube de poesia onde os sete personagens se reúnem é, além de uma resistência artística, uma fuga da solidão em um tempo obscuro. A inspiração vem de algo trivial no mundo real que é uma reunião de amigos, mas introduzida em um cenário onde a poesia, o elo entre eles, é proibida. Isso acaba levando uma simples reunião de poetas a se transformar em algo clandestino. A partir daí os personagens vão se mostrando no decorrer da história e se colocando em situações inesperadas.  

Clube do Leitor: em tempos onde a tecnologia e a rapidez muitas vezes atropelam a reflexão. O seu livro propõe que a poesia é um ‘ato de rebeldia e sobrevivência’. Para você, qual é o papel da arte hoje? Você acredita que a literatura ainda tem o poder de despertar movimentos de mudança, ou ela serve mais como um refúgio para quem sente que não se encaixa no padrão?

De Castro: Não existe humanidade sem a arte, nós a criamos para nos tornar humanos. Acredito que o papel da arte hoje é a expressão da vida, como sempre foi. Se a literatura serve de refúgio ou desperta uma mudança? Acho que, de alguma forma, os dois. Isso depende de cada pessoa, de quem ler, de quem ver, de quem escuta. Eu vejo essa questão da arte e literatura, especificamente, como algo dinâmico, assim como o ser humano. A arte pode ser resistência, acalento, diversão, reflexão, tudo isso e muito mais, a depender do contexto que ela está inserida.

Clube do Leitor: Como seu primeiro romance e um livro que chega às livrarias este ano, O Clube dos Poetas Clandestinos marca uma estreia marcante. Se pudesse enviar uma mensagem aos membros dos clubes de leitura que estão abrindo seu livro agora, o que você diria para prepará-los para a jornada que encontrarão na calada da noite em Santo Amaro?

De Castro: A vida, muitas vezes, é salva pela arte diariamente.

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