Entrevista:
Clube do Leitor entrevista Léo Salgado

Entre dados e raízes, tecnologia e silêncio da floresta, O Arquiteto e a Sacerdotisa revela uma história de reconexão humana em meio ao ruído do mundo moderno. Nesta entrevista ao Clube do Leitor, Léo Salgado fala sobre a construção de personagens que não são inimigos, mas complementares — um arquiteto de dados e uma paisagista sensorial —, sobre o poder transformador da natureza da Serra Fluminense e sobre a coragem de narrar o desejo, o luto e o recomeço na maturidade. Entre blecautes tecnológicos e despertares emocionais, o autor propõe uma reflexão delicada: talvez só quando o mundo se cala seja possível ouvir, finalmente, a verdadeira frequência do que somos.

Clube do Leitor: Em sua obra, Luiz representa o controle absoluto através dos dados, enquanto Bruna é a  fluidez da natureza. Como foi o processo de equilibrar essas duas visões de mundo tão  opostas sem transformar nenhum dos lados em um vilão?

Léo Salgado: Para equilibrar as visões de mundo opostas de Luiz e Bruna sem vilanizar nenhum dos lados, a obra foca na humanização de ambos e na demonstração de que suas abordagens, embora distintas, buscam o mesmo objetivo: bem-estar e conexão.

A Humanização de Luiz: Luiz não é apresentado como um vilão tecnológico, mas como alguém cujo pragmatismo e foco em dados são instintos de sobrevivência contra o estresse corrosivo da vida urbana. Seu palácio de tecnologia é seu santuário de segurança, e sua necessidade de controle é uma resposta ao “inferno logístico” que ele tentou abandonar.

A Profissionalização de Bruna: Bruna não é apenas uma figura mística ou “excêntrica”; ela é uma profissional de paisagismo sensorial que presta consultoria para spas e hotéis. A obra explica suas práticas através da química orgânica e da biofilia, transformando o que Luiz via como “feitiçaria” em uma forma de alta performance baseada na natureza.

O Reconhecimento da Limitação: O equilíbrio é alcançado quando ambos admitem que seus sistemas são incompletos sozinhos. Luiz percebe que sua tecnologia falha diante de um simples galho de árvore, enquanto Bruna ajuda a dar “alma sensorial” ao seu palácio moderno para que ele se torne “quase perfeito”.

O Ponto de Convergência: Em vez de um lado vencer o outro, a obra promove uma sinergia. Luiz aprende que “relaxar não é desistir do controle, mas perceber que você nunca o teve”, enquanto Bruna usa os recursos da casa de Luiz (como a tomada externa para carregar o celular) para ajudá-lo a restabelecer sua conexão com o mundo.

Clube do Leitor: A Serra Fluminense e a APA de Araras parecem ditar o ritmo da narrativa. Por que você  escolheu especificamente esse cenário para ser o catalisador da transformação de Luiz?  Existe alguma conexão pessoal sua com a energia das montanhas?

Léo Salgado: Importante entender, eu moro em meio a uma APA em Jardim Araras e a sua escolha como cenário central, deve-se ao fato de a natureza local possuir uma força indomável que serve como o contraponto perfeito à mentalidade binária de Luiz.

Abaixo, detalho as razões narrativas e a conexão pessoal presentes na obra:

Contraste entre Tecnologia e Natureza: Araras oferece um silêncio absoluto que Luiz já não recordava existir, forçando-o a sair do ritmo de processamento de alto desempenho para uma percepção sensorial humana.

O Colapso da Logística: O cenário atua como catalisador porque, na montanha, a natureza sempre dá a última palavra. Um simples galho de árvore caindo sobre a fiação é capaz de derrubar toda a redundância de sistemas que Luiz considerava infalível, obrigando-o a buscar abrigo no “santuário” de Bruna.

A “Programação” Milenar: Bruna explica que Luiz tenta forçar o seu código em uma terra que já possui sua própria programação há milênios. A serra não é apenas um pano de fundo, mas um sistema que não pode ser administrado por Luiz, apenas vivenciado.

Conexão Pessoal e Energia: Eu assino a obra diretamente de Jardim Araras, em 2026, o que indica minha conexão íntima e geográfica com o local. Depois de toda uma vida no Rio de Janeiro, em janeiro de 2025 me mudei para a minha casa em Araras. A narrativa reflete uma visão de que a montanha desliga os “ruídos” do mundo moderno para que se possa ouvir a canção da pessoa ao lado.

Simbolismo da Cura: Para Bruna, a serra foi o refúgio onde ela buscou silêncio para curar a ferida traumática da perda de seu noivo, mostrando que a energia das montanhas tem uma capacidade de purificação que o ambiente urbano do Rio de Janeiro destruíra.

Clube do Leitor: É revigorante ler sobre um protagonista de 50 anos redescobrindo o desejo e o propósito.  Qual a importância de trazer personagens maduros para o centro de uma história que é, ao  mesmo tempo, sensorial e profundamente sensual? 

Léo Salgado: Trazer personagens de 50 anos para o centro de uma narrativa sensorial e sensual é fundamental porque a maturidade oferece uma camada de complexidade e repertório que a juventude ainda não possui. Aqui estão os pontos principais para a sua resposta:

A Sensualidade como Presença, não apenas Performance: Na maturidade, a sensualidade deixa de ser apenas sobre o vigor físico e passa a ser sobre a percepção. Para Luiz e Bruna, o desejo é filtrado pela experiência. No livro, a sensualidade está no toque, no aroma do manacá, no sabor de um vinho sem rótulo e no silêncio compartilhado. É uma entrega mais consciente e, por isso, muito mais intensa.

O Mapa das Cicatrizes: Como o próprio texto diz no encerramento, “os corpos nestas histórias serviram como mapas”. Personagens de 50 anos carregam marcas: o luto de Bruna pela perda do noivo e o colapso nervoso de Luiz no trânsito do Rio. Trazer essa faixa etária para o centro mostra que o desejo e o propósito não têm prazo de validade; eles se transformam em algo mais profundo e resiliente.

Redescoberta vs. Descoberta: Diferente de um jovem que está descobrindo o mundo, Luiz e Bruna estão redescobrindo a si mesmos. Luiz precisa desaprender o controle absoluto dos dados para aprender a fluidez da natureza. Bruna precisa permitir que alguém atravesse o isolamento do seu luto. Essa “segunda chance” traz uma carga emocional e uma urgência que tornam a história muito mais rica para o leitor.

A Lição da Imperfeição: Personagens maduros aceitam melhor a “precariedade da existência”. Eles sabem que a segurança é uma ilusão. Isso permite que a sensualidade entre eles seja mais real, despida de máscaras e focada na conexão verdadeira, onde o “Arquiteto” e a “Sacerdotisa” se fundem sem a necessidade de provar nada ao mundo, apenas um ao outro.

Essa abordagem valoriza o leitor maduro, que se vê representado em uma história onde a inteligência, o trauma superado e a sensibilidade são os verdadeiros afrodisíacos. Acho importante esclarecer que tenho alguns textos prontos, aguardando para serem lançados que tratam do que chamamos de “Silver Romance” e outros sobre “Amor Geracional”, isso e personagens femininos sempre fortes e poderosos é uma de minhas características.

Clube do Leitor: O livro propõe que “a verdadeira frequência não precisa de sinal”. Você acredita que, na  vida real, precisamos — assim como Luiz — de um “blecaute total” para conseguirmos olhar  para dentro de nós mesmos hoje em dia? 

Léo Salgado: Acredito que, infelizmente, a maioria de nós se tornou ‘dependente de sinal’ para validar a própria existência. Vivemos em um estado de alerta constante, processando dados, notificações e expectativas alheias, exatamente como Luiz fazia em seu ‘inferno logístico’ no Rio.

Na vida real, o ‘blecaute total’ que Luiz experimenta — a queda da luz, o silêncio da bateria descarregada — funciona como um reboot forçado do sistema humano. Hoje em dia, somos tão eficientes em ignorar os sinais do nosso próprio corpo e da nossa intuição que muitas vezes precisamos de um evento externo disruptivo para parar.

Como a obra sugere, a ‘verdadeira frequência’ é aquela que só ouvimos quando as interferências externas cessam. Não é que a tecnologia seja o problema, mas a nossa incapacidade de nos desconectarmos dela. Para Luiz, foi necessário que o seu ‘palácio de dados’ falhasse para que ele percebesse que a segurança que ele tanto buscava não estava nos sistemas de redundância, mas na conexão orgânica e analógica com Bruna.

Portanto, sim, acredito que em um mundo saturado de conectividade, o blecaute — seja ele físico, como uma queda de energia na Serra, ou mental, como um retiro — é muitas vezes o único caminho para redescobrirmos a nossa essência e ouvirmos, finalmente, a canção de quem está ao nosso lado.”

Clube do Leitor: A Bruna é descrita como uma “sacerdotisa moderna” e paisagista sensorial. Como foi a sua  pesquisa para construir essa personagem tão conectada aos ciclos da floresta e ao luto de sete  anos que ela carre

Léo Salgado: Primeiro uma revelação. Bruna existe! A sua base na verdade é uma amiga muito especial que tem a sensibilidade, o poder e o misticismo de uma “Druída Modernas” em seu intimo, mas, coo um todo a construção da Bruna exigiu uma pesquisa que unisse o rigor técnico à sensibilidade espiritual. Para o lado profissional dela, mergulhei no conceito de paisagismo sensorial e biofilia, que vai muito além da estética: é o estudo de como os elementos naturais — aromas, texturas, o som da água e as cores das plantas — afetam diretamente o sistema nervoso humano e ajudam na cura de traumas. Ela não ‘planta jardins’, ela desenha experiências de cura para os outros, talvez como uma forma de tentar curar a si mesma.

Já para o aspecto da ‘Sacerdotisa’, a pesquisa foi mais intuitiva e observacional. A Bruna é o reflexo da própria APA de Araras; ela aprendeu a ler os ciclos da floresta porque foi neles que ela se refugiou após a perda traumática de seu noivo. O luto de sete anos não é um peso morto na história, mas um período de maturação. Na natureza, sete anos é o tempo que muitas árvores levam para se fortalecer antes de dar grandes frutos.

O luto da Bruna é ‘bioquímico’ e ‘espiritual’. Ela entende que a morte é parte do ciclo orgânico, mas sua dificuldade era permitir que algo novo crescesse em seu próprio jardim particular. A pesquisa para esse luto veio de observar como as pessoas reconstroem sua identidade após perdas devastadoras: elas criam santuários. O jardim da Bruna e sua casa são o seu santuário, e a entrada de Luiz — o homem dos dados e do concreto — representa a colisão necessária para que esse ciclo de sete anos de isolamento, enfim, se complete e se transforme em algo novo.

Clube do Leitor: Léo, você dedicou 45 anos aos Recursos Humanos e ao Direito, áreas pautadas por normas  e pragmatismo. Como foi para você “sair da zona de conforto” dos livros técnicos e  mergulhar na escrita sensorial do romance? O Luiz (o arquiteto de dados) carrega algo desse  seu olhar profissional sobre o comportamento humano? 

Léo Salgado: Mergulhar na escrita sensorial foi, ao mesmo tempo, um desafio e uma libertação. Após quase quase seis décadas de atividade profissional, sendo 45 anos dedicados ao Direito e aos Recursos Humanos — áreas onde a palavra deve ser precisa, normativa e, muitas vezes, fria — escrever romance me permitiu usar a palavra para ‘sentir’ em vez de apenas ‘instruir’. Sair da zona de conforto técnica foi como abrir as janelas de um escritório fechado e deixar o aroma do manacá de Araras entrar.

O Luiz carrega, sim, muito do meu olhar profissional. No RH e no Direito, lidamos o tempo todo com o comportamento humano sob pressão e com a tentativa de enquadrar a vida em sistemas e regras. Luiz é o reflexo desse homem moderno que acredita que pode ‘gerenciar’ a existência através de dados e algoritmos. Eu vi muitos ‘Luizes’ ao longo da minha carreira: profissionais brilhantes que, em busca de controle absoluto, acabaram perdendo a conexão com o que é orgânico e essencial.

O meu olhar de RH me ajudou a construir o ‘ponto de ruptura’ do Luiz. Eu sei o que o estresse corrosivo faz com um ser humano. Por isso, a transformação dele no livro é tão fundamentada: ele não está apenas mudando de endereço, está mudando de ‘sistema operacional’. Ele deixa de ser o gestor de dados para se tornar um aprendiz da vida. De certa forma, escrever essa trilogia é a minha própria maneira de mostrar que, depois de tanto tempo analisando normas, o que realmente importa no final do dia é a sensibilidade e a conexão que estabelecemos com o outro

Clube do Leitor: O Arquiteto e a Sacerdotisa é ambientado em Araras, Petrópolis, lugar que você chama de  seu “quintal”. Qual é a importância de escrever sobre um território que você habita e ama? De  que forma o clima e a natureza da Serra Fluminense moldaram a sensualidade e o ritmo desta  história? 

Léo Salgado: Escrever sobre Araras é escrever sobre a minha própria respiração. Quando chamo este lugar de meu ‘quintal’, não falo apenas de proximidade geográfica, mas de uma intimidade profunda com cada variação de luz e cada mudança no vento da Serra. Escrever sobre o território que habito me permite uma precisão sensorialque a pesquisa teórica jamais alcançaria: eu conheço o cheiro exato da terra após a chuva de verão, o toque da neblina que entra pelas janelas sem pedir licença e o silêncio absoluto que só as montanhas de Petrópolis oferecem.

O clima da Serra Fluminense foi, de fato, o grande coreógrafo da sensualidade e do ritmo desta história. Em Araras, o tempo corre de outra forma; ele é ditado pelos ciclos orgânicos, e não pelos cronômetros digitais. Essa lentidão forçada moldou o encontro de Luiz e Bruna: a sensualidade aqui não é apressada ou urbana; ela é analógica e gradual.

O frio da noite convida ao vinho, ao fogo da lareira e à proximidade dos corpos. A natureza exuberante da APA de Araras, com seu ‘luxo da simplicidade’, permitiu que a história se despisse de superficialidades. A sensualidade do livro está nas pequenas percepções: o gosto de um fruto colhido na hora, o som das árvores que Luiz tenta ‘decodificar’ e a eletricidade de um toque que acontece quando todo o resto do mundo — e toda a tecnologia — mergulha no blecaute. No fundo, a Serra Fluminense não é apenas o cenário; ela é a força que ensina ao Arquiteto que a vida, assim como o amor, não pode ser projetada, apenas vivenciada em toda a sua imperfeita e bela natureza

Clube do Leitor: Você tem lançado vários Short Reads de sucesso, como Amanda & Arthur e Algoritmos de  Sangue e Sândalo. Como é o desafio de criar uma conexão profunda entre os personagens e o  leitor em um formato mais curto? Podemos esperar que essa “urgência de desconectar” de  Luiz e Bruna seja o prelúdio para os seus próximos romances tradicionais?

Léo Salgado: O desafio do Short Read é uma lição de economia emocional. Em títulos como Amanda & Arthur,Algoritmo de Sangue e Sândalo (ainda existem mais 9 titulos na Amazon), eu não tenho centenas de páginas para construir a intimidade; eu preciso que o leitor sinta a eletricidade entre os personagens já no primeiro parágrafo. O segredo está em focar no essencial: um gesto, um cheiro, um silêncio carregado. No formato curto, a conexão profunda vem da intensidade da experiência presente, como um encontro avassalador que não precisa de passado nem de futuro para se justificar.

Sobre o Luiz e a Bruna, eu diria que a ‘urgência de desconectar’ deles é, sem dúvida, o DNA do que pretendo explorar nos meus romances tradicionais. Se os Short Reads são faíscas, os romances maiores são a fogueira onde podemos nos aquecer por mais tempo.

Essa necessidade de abandonar o ‘ruído’ tecnológico para reencontrar o ‘sinal’ humano é um tema que me fascina e que é e será o fio condutor das minhas obras longas. Podem esperar personagens que, embora imersos na modernidade, buscam desesperadamente essa ‘segunda chance’ de viver uma vida analógica, tátil e profundamente sensorial. O ‘blecaute’ de Luiz e Bruna não foi apenas um encerramento, mas o prelúdio de um novo olhar que pretendo lançar sobre o amor e o desejo na maturidade.

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