Clube do Leitor: O livro traz uma energia muito autêntica vinda dos campos de batalha reais de Fortaleza. Como foi o processo de traduzir a adrenalina e a estratégia dos treinos de SwordPlay para um cenário de apocalipse tecnológico? Algum combate específico do livro foi ‘coreografado’ a partir de uma luta que você viveu na vida real?
Neil Rezende: Algumas cenas são totalmente reais, quando se referem e contam a história de GJ antes do apocalipse. Elas foram vividas por meu filho e seus amigos da mesma forma como é contada. Às vezes eu acompanhava, e até gravava algumas delas. A tradução foi bem espontânea, como quando você se empolga para contar uma história real. E boa parte dos combates no mundo pós apocalíptico também é baseada nesses combates. O Hades (Hades Armstrong) costumava usar um bastão bem grande, diferenciado, com pontas marcantes. Isso foi a base da arma mortífera de GJ. Um dos momentos marcantes foi quando ele perdeu todo o batalhão e ficou sozinho lutando contra o clã oposto, na vida real ele foi atingido no final, mas restavam poucos do outro clã.
Clube do Leitor: Diferente dos apocalipses barulhentos do cinema, Flores de Espada aposta em uma tecnologia silenciosa e plausível. Sem entregar spoilers, o que exatamente torna a tecnologia PSE tão inquietante para o leitor que confia cegamente no avanço científico atual?
Neil Rezende: Fiz uma pesquisa sobre os filmes de zumbis antigos e atuais. Entrevistei cientistas, físicos e pesquisadores. Descobri que as tecnologias usadas nos filmes não são nem de longe plausíveis. Sem contar com as seguranças das casas e nações hoje em dia, que não permitiriam algo assim acontecer. Então resolvi criar uma tecnologia e uma forma em que pudesse realmente acontecer um caos com zumbis tomando conta do planeta. E para isso, encontramos fatores humanos bem complicados, que tem a ver com a corrupção, burocracia, e o próprio egoísmo humano, que espalha vírus, doenças e caos. A busca desenfreada e a aceitação de qualquer medicamento que prometa beleza, saúde e vida eterna. E quando falo isso, não falo da busca por uma vida saudável de verdade, que é fundamental, mas que exige comprometimento, exercícios e força de vontade, mas nos meios artificiais e desequilibrados de se conseguir isso, quebrando regras e procedimentos através de tratamentos mais rápidos ou mais baratos.
Clube do Leitor: No centro desse caos global temos a Sabrina. Em um mundo onde líderes e soldados estão se tornando ‘algo além do humano’, o que mantém a humanidade dela intacta? Seria a honra das espadas um contraponto à frieza da tecnologia?
Neil Rezende: Com certeza. Ela havia participado de alguns torneios, e a proteção de seu pai, juntamente com os códigos que havia aprendido, foram tornando-a mais forte e preparada. A saga de Sabrina está apenas começando. Ela ainda está aprendendo a viver, ainda tem a proteção do tio no início, mas a dura realidade e o apoio dos novos semideuses vão dando a ela um caminho sólido para a construção de sua força, sem perder sua essência, seu amor nem sua humanidade.
Clube do Leitor: Você utiliza teorias físicas e sociológicas para dar base ao livro. Qual foi o maior desafio em equilibrar o rigor científico de uma ‘Hard Sci-Fi’ com a narrativa épica e emocional de uma batalha pela sobrevivência?
Neil Rezende: Vivemos em um mundo tecnológico que está cada vez mais avançado. Mas nem todo mundo tem acesso às tecnologias, e sempre a vontade humana, os sentimentos, prevalecem, sejam eles bons ou ruins, em todos os setores. Observar o mundo ao redor, com suas personagens e personalidades muitas vezes pouco preparadas para lidar com essas novas tecnologias, abre um espaço para a construção do caos. Isso já ocorre, o desafio é extrapolar isso dentro de um universo fantástico, mas plausível, e usando especulação científica para criar uma história emocionante e com base na realidade tecnológica e humana.
Clube do Leitor: O título do livro evoca uma dualidade interessante entre a delicadeza e a violência. O que ‘Flores de Espada’ simboliza dentro dessa nova era que nasce após a queda dos governos? É um símbolo de resistência ou de uma nova e perigosa evolução?
Neil Rezende: As pessoas que restaram, sejam fortes ou fracas, mansas ou bravas, espinhos ou flores, terão que se adaptar ao novo mundo. O mundo feminino hoje já mostra que nem só de docilidade é sua natureza, é um universo que se mostra forte, capaz, mas sem perder a mansidão e a delicadeza da flor. Assim, vão nascendo na realidade e no livro, as flores de espada. Amáveis, belas, mas coerentes e fortes na luta pela sobrevivência.
Clube do Leitor: Como diretor e roteirista de animações como Astrobaldo e Alba e os Fantasmas, sua escrita carrega uma herança visual muito forte. Em Flores de Espada, como a sua experiência em ‘enxergar’ a cena em 3D e dirigir sequências de ação influenciou a escrita dos combates viscerais e a construção tecnológica do mundo?
Neil Rezende: Quando escrevo, acabo pensando e imaginando sempre de forma cinematográfica. Essa visão também é corroborada por modelos em 3D, que eu mesmo faço, para entrar na história e ver o que os personagens enxergam. Mas procuro sempre me inserir na história, independente do apoio visual, e ser um observador imerso, sentir o que cada personagem sente, e na maioria das vezes sentir o que um leitor poderia sentir, escrevendo histórias e cenas que eu amaria ver. A experiência como ator ajuda muito nesses momentos, sendo que em alguns casos eu até “enceno” algumas passagens.
Clube do Leitor: Você leciona Modelagem 3D e Sistemas Digitais na UFC. O quanto do seu conhecimento técnico e das discussões em sala de aula sobre o futuro da tecnologia serviu de base para criar a ‘PSE’, essa tecnologia silenciosa que derruba governos e transforma a humanidade no livro?
Neil Rezende: Esse conhecimento, como falei, ajuda na descrição das cenas. Mas na universidade, o contato com professores e pesquisadores, doutores e pós-doutores em física, astronomia, química, entre outros, ajudaram na minha pesquisa para isso. Vendo palestras, conversando e entrevistando alguns cientistas. Mas além disso, fiz muitas leituras sobre tecnologias e possibilidades. Uma pesquisa interessante aconteceu quando eu peguei um avião de Brasília para Fortaleza, e estava escrevendo a cena em que Helena estava vindo de avião no mesmo trecho, quando tudo vida um caos. Eu precisava achar uma solução para ela escapar. E nesse mesmo trecho pedi para entrevistar os pilotos, que me confirmaram umas teorias e me fizeram ter as ideias finais. Eu não queria me basear só na literatura existente, nem na visão dos filmes de ação, queria algo pensado de acordo com a realidade atual.
Clube do Leitor: Sua trajetória literária passa pelo premiado Última Fortaleza. Como você enxerga a evolução dos seus temas centrais — como sobrevivência e a relação humana com o caos — agora que chegamos ao universo de Flores de Espada? Há algum fio condutor entre essas obras?
Neil Rezende: Tenho alguns universos que tem um certo entrelaçamento. Neste caso específico dos livros da Última Fortaleza e Flores de Espada, são universos totalmente diferentes, com passados e futuros distintos.
Clube do Leitor: O livro incorpora a energia real dos treinos de SwordPlay. Como um profissional das artes cênicas e do audiovisual, o que mais te fascina nesse esporte: a performance estética do combate ou a estratégia quase matemática envolvida em um confronto com espada e escudo?
Neil Rezende: Acho que as duas coisas são importantes. E a adrenalina gerada nesse jogo real do Swordplay. Você precisa de preparo físico e muito treino, e com o tempo, é como se seu corpo e sua visão se expandisse com o tempo e treinamento. O que os deixaram preparados para o porvir.
Clube do Leitor: Em suas séries e livros, você frequentemente cria mundos que passam por grandes transformações. Em um cenário onde a tecnologia falha e os aviões caem, por que você acredita que conceitos como ‘honra, coragem e conhecimento’, as armas citadas na sinopse, tornam-se mais eficazes do que qualquer software?
Neil Rezende: Esses aspectos, esses treinos, são o que diferem os “novos semideuses” da população geral. Eles estavam prontos para o combate, prontos para sobreviver. Em um mundo onde não existe mais fábricas de armas de fogo nem de balas, as espadas e escudos prevalecem. Não são somente as armas à mão, mas a preparação, a disciplina, e força e o hábito de lutar e vencer que fazem a diferença. Mas para isso, a honra, a honestidade, a fidelidade aos amigos e parceiros, são fundamentais para sobreviver num mundo onde a força passa a ser a lei da sobrevivência.

