Entrevista:
Clube do Leitor entrevista o escritor João Paulo Longo

Nesta entrevista ao Clube do Leitor, o autor de Deep Tech – do laboratório ao mercado convida o público a olhar para a inovação além do entusiasmo superficial, revelando os desafios, os tempos e os paradoxos que moldam as tecnologias profundas. Ao relacionar ciência, natureza e propósito, ele explica como ideias que nascem em laboratórios enfrentam barreiras culturais, científicas e de mercado até se transformarem em soluções reais. Em uma conversa que atravessa biologia, empreendedorismo e futuro tecnológico, a obra surge como um guia para compreender por que inovar é um processo longo, arriscado e, acima de tudo, movido por propósito.

Clube do Leitor: Em Deep Tech – do laboratório ao mercado, você propõe um olhar que ultrapassa o entusiasmo em torno da tecnologia para discutir seu impacto real. Na sua visão, qual é o principal equívoco que a sociedade costuma cometer ao falar sobre inovação?

JPL: Não acho que existem erros propriamente ditos. O tema inovação não era pauta relevante a pouco tempo atrás. Mas a sociedade passou a observar e tentar entender mais como este processo funciona. Obviamente que acompanhar de perto o processo de inovação traz muita ansiedade para quem está de fora. O público geral tem muitas expectativas para resolver problemas reais que a inovação possa solucionar, mas isso leva um tempo, que por vezes, não é completamente entendido. Uma evolução neste processo é tentar explicar que existe um processo no desenvolvimento de inovações de impacto. E é exatamente isso que o livro tenta trazer para o público, uma discussão dos grandes desafios para a geração de inovações disruptivas.

Clube do Leitor: No início da obra, você aproxima o conceito de inovação do próprio processo evolutivo da natureza, citando exemplos como a produção de melanina. Como essa relação entre natureza e tecnologia ajuda a compreender melhor o surgimento das chamadas Deep Tech?

JPL: Isso foi um pouco do que eu trouxe das minhas aulas para o livro. Como tenho uma formação em ciências biológicas, eu sempre observo a natureza como um processo de evolução constante, que também pode ser encaixado nas definições de inovação. É como se Deus estivesse sempre inovando para gerar a evolução das espécies. E aí nós temos muitos exemplos de evoluções biológicas que podem ser entendidas como inovações biológicas desenvolvidas para a evolução das espécies.

E além deste exemplo, que trouxe da sala de aula, existem muitas estratégias de inovação que se inspiram neste processo. É o que chamamos de biomimese ou biomimética, ou seja, tentar imitar o biológico. É uma forma de entender o sistema biológico e criar algo novo, imitando o que a biologia eventualmente demorou milhares de anos para desenvolver. Dentro da revolução biotecnológica que estamos vivendo, muitos medicamentos estão sendo desenvolvidos com esta estratégia.

Clube do Leitor: Grande parte das tecnologias profundas nasce em ambientes acadêmicos ou laboratoriais, mas transformar conhecimento científico em soluções de mercado ainda é um grande desafio. Quais são, na sua experiência, as principais barreiras que pesquisadores enfrentam nesse processo?

JPL: A inovação em Deep Tech normalmente nasce nestes ambientes pois ela é fortemente relacionada à conhecimentos da fronteira do conhecimento, que é muito abundante nestes ambientes. E as barreiras de translação destes ambientes acadêmicos para o mercado são múltiplos, indo desde aspectos culturais, passando por propriedade intelectual e também relacionados à regulamentação da atividade de pesquisadores no setor produtivo. Alguns países líderes em Deep Tech conseguiram criar ambientes mais direcionados neste sentido. O Brasil está no momento criando estes ambientes, criando o seu próprio sistema de estimulo e indução de inovação.

 Clube do Leitor: A Deep Tech exige tempo, investimento e maturidade científica, muitas vezes em contraste com a cultura contemporânea da inovação rápida e das soluções imediatas. Como equilibrar a necessidade de profundidade científica com as pressões do mercado e do empreendedorismo tecnológico?

JPL: Este é um desafio mundial. A expectativa e ansiedade pala solução de problemas pode gerar atropelos no processo de desenvolvimento de inovações. É natural, e completamente aceitável. O que a comunidade de tecnologia e inovação deve compartilhar é que alguns processos de inovação são mais longos que outros. O papel de quem está desenvolvendo inovações é tentar explicar como estes processos funcionam. Faz parte do nosso trabalho, e é uma das iniciativas do livro, tentar desmistificar e esclarecer os principais desafios do processo de inovação.

Clube do Leitor: Ao longo do livro, fica evidente que tecnologia e propósito caminham juntos em sua trajetória. Que tipo de futuro você acredita que a Deep Tech pode construir para a sociedade nas próximas décadas — e qual deve ser o papel dos cientistas e empreendedores nesse cenário?

Gerar inovação é um processo muito desafiador e pouco eficiente. Quero dizer que a maioria absoluta das inovações não gerará resultados positivos, vão falhar no processo de sua criação. Para quem trabalha gerando inovações, é um processo muitas vezes frustrante. Ou seja, se as pessoas olharem de forma racional, é claro que não vão decidir ser um pesquisador, um inovador etc. Por exemplo, em termos de Deep Techs, temos um número mágico que diz que apensa 1% das iniciativas vão prosperar, ou seja 99% falham. E é nesse ambiente que a parte emocional entra, para trabalhar com inovação, as pessoas tem que estar motivadas por fatores não racionais, o que é um paradoxo para cientistas etc. E é neste ambiente que o propósito entra, sem esse sentimento de emoção envolvido, dificilmente se consegue prosperar em um ambiente tão desafiador, que é a geração de Deep Techs.

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