Ricardo Colares: Sempre me intrigou o fato de que a maior história espiritual do Ocidente foi contada, inevitavelmente, a partir de poucos nomes que ficaram registrados. Mas a crucificação de Cristo aconteceu diante de uma multidão. Havia soldados, comerciantes, curiosos, mães com filhos, gente que estava apenas passando por ali. Pessoas que viram aquele momento e desapareceram da história sem deixar uma linha escrita.
Azaria nasce dessa inquietação. Eu quis imaginar o olhar de alguém comum diante de um acontecimento que mudaria o mundo. Não um apóstolo, não um teólogo, não um profeta. Apenas um jovem que viu algo que não conseguiu esquecer. A partir daí o livro se tornou uma pergunta literária: o que acontece com a vida de alguém que testemunha um momento histórico que ele próprio ainda não compreende?
Ricardo Colares: Quando um acontecimento é repetido por dois mil anos, ele corre o risco de se transformar em monumento. E monumentos são respeitados, mas raramente são sentidos.
O que me interessava era devolver humanidade à cena. A crucificação não foi apenas um símbolo teológico. Foi um evento brutal, físico, público. Houve poeira, medo, gritos, silêncio. Houve gente tentando entender o que estava acontecendo.
Ao deslocar o olhar para alguém que não pertence ao núcleo da tradição cristã, eu consegui aproximar o leitor dessa experiência. Azaria não possui respostas. Ele possui perplexidade. E muitas vezes é justamente nesse estado de perplexidade que o sagrado se torna mais próximo do humano.
Ricardo Colares: Para mim, escrever sobre o passado exige mais do que datas e eventos. O leitor precisa sentir que aquele mundo tem peso, cheiro, textura.
Durante a pesquisa, mergulhei em relatos históricos sobre a Jerusalém do século I, sobre vestimentas, mercados, construções, rotinas da vida cotidiana. Mas o objetivo nunca foi fazer uma aula de história. Era criar uma atmosfera que permitisse ao leitor caminhar pelas ruas junto com Azaria.
Eu queria que o leitor sentisse o calor das pedras, o barulho das sandálias no chão, o movimento das pessoas na cidade durante a Páscoa. Quando o ambiente ganha corpo, o personagem também ganha.
Ricardo Colares: Uma das ideias centrais do livro é que a fé verdadeira raramente nasce da certeza imediata. Ela nasce da inquietação.
Azaria não entende plenamente o que está vendo. Ele tenta interpretar, tenta lembrar, tenta dar sentido àquilo que presenciou. A fé dele não é uma adesão automática a uma doutrina. É uma caminhada interior.
Eu acho que isso aproxima muito o leitor da experiência do personagem. Porque a maioria das pessoas vive sua espiritualidade exatamente assim: com perguntas, com hesitações, tentando conciliar razão, memória e emoção.
Ricardo Colares: Esse foi talvez o maior desafio da escrita. A história de Cristo é um dos eventos mais estudados da humanidade. Qualquer erro grosseiro quebra imediatamente a confiança do leitor.
Por isso eu trabalhei com duas camadas muito claras. Os acontecimentos históricos permanecem respeitados dentro do que sabemos sobre aquele período. A ficção entra no espaço das experiências individuais, das emoções, das pequenas histórias que não foram registradas.
Azaria não altera a história. Ele a testemunha. Isso me permitiu preservar o rigor histórico enquanto explorava a dimensão humana que a ficção pode alcançar.
Ricardo Colares: No fundo, eu espero que o leitor termine o livro com uma sensação simples, mas poderosa: a história não é feita apenas pelos grandes nomes que aparecem nos livros.
Ela também é feita pelas pessoas que estavam ali, olhando, tentando entender, carregando memórias que nunca serão registradas.
Azaria representa todos aqueles que testemunham acontecimentos que mudam o mundo sem saber, naquele momento, o tamanho do que estão vendo. Se o leitor terminar a leitura pensando sobre o papel da memória individual dentro da história humana, então o livro cumpriu o seu propósito.

