Clube do Leitor: Milena, você conta que sua relação com a escrita começou ainda na infância, entre poemas, versos e muita leitura. Em que momento percebeu que queria transformar esse encantamento pela palavra em histórias para outras pessoas, especialmente para o público infantil?
Milena Camargo: Desde a infância, sempre vivi em meio a livros. Lembro-me quando ganhei 5 livros com ilustrações para criar diálogos dentro de balões. Achava muito legal, criar a própria história no livro. Comecei na adolescência meus primeiros versos, poemas, paixões. Depois, iniciei com diários, este hábito permaneceu até a vida adulta. Porém, ninguém nunca soube e eu achava que alguns textos precisavam ser compartilhados, não que eu considere minha escrita maravilhosa, mas alguns textos tocaram meu coração, queria que pudesse tocar alguém. Acredito que a escrita infantil, por trabalhar com crianças e perceber o mundo delas mais de perto e também depois de ser mãe.
Clube do Leitor: Em Rose, acompanhamos uma menina alegre que começa a se transformar para ser aceita pelos colegas. Como surgiu a ideia de criar essa personagem e discutir, por meio dela, temas tão sensíveis como identidade, pertencimento e aceitação?
Milena Camargo: Minha história de vida, me vi na Rose em várias fases, também porque não conseguia me identificar com as personagens da literatura. Querer transformar algo de negativo em palavras doces, com uma mensagem poética é libertador. Posso mostrar um tema, que pode machucar ferir e trazer muitos traumas, de um jeito que possa tocar o coração. Precisamos conversar mais sobre assuntos delicados, pois assim como eu, outras crianças podem passar por situações semelhantes, se identificar e saber lidar com mais sensibilidade, verdade e seguir com a cabeça erguida.
Clube do Leitor: Sua trajetória passa pela poesia, mas agora você tem se dedicado ao universo infantil. O que muda no processo criativo ao escrever para crianças? Há desafios ou descobertas especiais nessa transição?
Milena Camargo: O gênero que mais me encontro são os poemas, a poesia me encanta e comecei assim. Meu livro infantil, é todo em verso. Gosto das rimas, da descoberta das palavras. Porém, comecei a escrever contos, tudo muito novo. As ideias vão chegando, eu sempre acompanhada de um caderno para anotar o que pode virar história. Acredito que o papel me instiga a escrever, rabiscar, apagar, ver a dança das palavras, algo que no notebook não me dá. Está sendo um desafio muito gostoso, pretendo me encontrar neste universo.
Clube do Leitor: A história de Rose toca em questões muito presentes na infância, como a pressão para se encaixar em grupos e o medo de ser diferente. Que tipo de reflexão você espera despertar em crianças, pais e educadores que lerem o livro?
Milena Camargo: De um modo poético, com palavras simples, mas amorosas, quero que desperte um autoconhecimento, a valorização do eu, a aceitação do jeito que somos, pois vivemos constantemente procurando algo, que muitas vezes nem sabemos o que é. Não é uma tarefa fácil quando somos crianças e jovens, mas precisamos conversar sobre os valores, nossas cores, nossos gostos, nossas origens. Nesta leitura, espero trazer esse amor , além de mostrar o significado de uma verdadeira amizade.
Clube do Leitor: Em sua biografia você fala sobre “encantamento” como parte essencial da sua jornada literária. Depois de Rose, quais sonhos ou histórias você ainda deseja compartilhar com os leitores?
Milena Camargo: Já tenho outro que está rascunhado, que também tenho o sonho em vê-lo como livro. Tenho alguns rascunhos, observando as necessidades da sala de aula, as vivências sendo mãe, das experiências e conversas com amigas. Assim vou transformando essas ideias em palavras, essas palavras em história… O escrever é um processo solitário, muitas vezes a gente nem acredita em nossa capacidade. Demorei para perceber, mas quando recebi reconhecimento, crianças agradecendo, vi que poderia continuar, que tinha dado certo. Quero me dedicar ao processo, para que o produto final seja transformador.

