Entrevista:
Clube do Leitor entrevista o escritor Eduardo Trankels

Eduardo Trankels transforma dor extrema e memórias difíceis em uma narrativa honesta sobre resistência, provando que, mesmo quando tudo parece perdido, permanecer também é uma forma de vencer.
Clube do Leitor: Qual foi o momento em que você sentiu que sua história precisava ser contada?

Eduardo Trankels:

Não foi um momento único, foi um acúmulo.

Durante muito tempo eu apenas sobrevivi ao que vivi.
Mas chegou um ponto em que eu percebi que aquela história não era só minha — ela carregava algo que poderia alcançar outras pessoas.

O que despertou isso em mim foi entender que a dor que eu enfrentei não precisava terminar em silêncio.
Ela podia se transformar em sentido.

Eu não escrevi para provar que sou forte.
Eu escrevi porque percebi que permanecer também pode ser ensinado.

Clube do Leitor: Ao revisitar memórias tão frágeis, como você encontrou força para mantê-las vivas na página?

Eduardo Trankels:

Eu não encontrei força antes de escrever.
A escrita foi o lugar onde essa força apareceu.

Revisitar essas memórias não foi leve.
Em alguns momentos foi como reviver tudo novamente.

Mas eu entendi que fugir daquilo só prolongava o peso.
Quando eu coloquei no papel, aquilo deixou de ser algo que me esmagava e passou a ser algo que eu conseguia olhar de frente.

A dor não desapareceu…
mas ganhou forma, sentido e lugar.

Clube do Leitor: Você optou por uma narrativa crua. Como equilibrou dor e esperança?

Eduardo Trankels:

Eu não quis romantizar porque a dor não foi romântica.

Se eu suavizasse demais, eu estaria sendo desonesto com quem vive algo parecido.

O equilíbrio não veio de esconder a dor, mas de mostrar que ela não foi o ponto final.

A esperança no livro não é um discurso bonito.
Ela aparece na decisão de continuar, mesmo quando não havia garantia de nada.

Meu maior medo era que a história fosse vista como sofrimento sem saída.
Por isso, fiz questão de mostrar que, mesmo no fundo, ainda existia escolha.

Clube do Leitor: Como encontrou linguagem para momentos tão extremos?

Eduardo Trankels:

Eu precisei parar de tentar explicar e comecei a sentir novamente.

Tem coisas que não cabem em palavras técnicas.
Elas só cabem em verdade.

Quando escrevi sobre os dezoito segundos, sobre a leucemia, sobre a cadeira…
eu não busquei palavras bonitas, busquei palavras honestas.

E o que a escrita revelou sobre mim foi simples e forte ao mesmo tempo:

Eu não era invencível.
Mas também não era alguém disposto a parar.

Clube do Leitor: “Quando tudo é retirado de você, o que ainda permanece?”

Eduardo Trankels:

Essa pergunta me acompanhou o tempo todo.

Porque em muitos momentos da minha vida eu realmente senti que tudo tinha sido tirado.

Saúde.
Estabilidade.
Direção.

E foi nesse cenário que eu descobri algo essencial:

Permanecer não depende do que você tem.
Depende da decisão que você toma.

O que permaneceu em mim foi a escolha de continuar, mesmo sem garantia.

E isso mudou tudo.

Clube do Leitor: Qual a verdade mais importante para quem está em ruptura?

Eduardo Trankels:

Que o momento que parece o fim… pode não ser o fim.

Eu gostaria que o leitor entendesse que ele não precisa ter todas as respostas agora.

Ele só precisa não desistir hoje.

Se o meu livro pudesse sussurrar algo, seria isso:

Você pode estar quebrado…
mas ainda está de pé por dentro.

E isso já é o suficiente para continuar.

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