Clube do Leitor: Alfredo, sua trajetória acadêmica e profissional é marcada pela Bioquímica e pela Biotecnologia — áreas exatas e laboratoriais. Como o seu olhar de cientista influenciou a sua visão sobre a “crise de valores” na sociedade atual? Existe uma “fórmula” ou um método estruturado para transformarmos o Homem em Ser Humano, como você propõe na obra?
Alfredo Sá Almeida: Recentemente eu construí uma frase que ajuda a compreender o que vou responder: “O meu Futuro não tem pressa, tem propósito”. Quer isto dizer que eu comecei a construir o meu Futuro aos 11 anos quando defini a matéria que gostaria de desenvolver no meu futuro – a Química. Com essa idade comecei a construir o meu laboratório de acordo com os meus conhecimentos. Fui desenvolvendo, durante todo o meu percurso Escolar, ao ponto de decidir matricular-me no curso de Química da Faculdade de Ciências de Lisboa (depois de passar todos os exames). Chegado ao fim do meu Bacharelato (3º ano) tinha de decidir a especialidade da minha Licenciatura. Decidi que seria Bioquímica, pois era a matéria que estava mais de acordo comigo, envolvia a Química da Vida (Bioquímica). Chegado ao final do meu 4º ano, tinha de começar a decidir a matéria da tese de fim de curso. Decidi que seria a Neuroquímica. Não tinha a certeza se conseguiria realizar uma tese de fim de curso, nesta matéria, mas iria fazer todos os esforços para que fosse uma realidade. Quando chegou o final do curso a Faculdade indicou-me um trabalho para tese que não me agradava absolutamente nada, mas iniciei. Sorte – tinha um colega Biólogo que estava a realizar um estágio de fim de curso no Instituto Gulbenkian de Ciência, no grupo de trabalho de Neurofarmacologia. Esse colega queria sair, pois não se estava a adaptar muito bem. Tal como eu, não me estava a adaptar muito bem, com a minha tese de fim de curso. Esse colega Biólogo, sabendo os meus interesses em Neuroquímica, e, dos estudos que eu tinha realizado sobre esta matéria, perguntou-me se eu queria falar com o responsável do grupo de Neurofarmacologia do IGC.
Não pensei duas vezes, fui a uma entrevista e fui Aceito. Com a colaboração do Departamento de Química da FCL a minha tese passou a ser intitulada“Estudos Farmacológicos em sinaptossomas”. Foram os quatro anos mais felizes da minha vida. Tive a nota de 18 valores na tese de fim de curso, fiquei mais três anos no IGC, para além do relatório final da tese e participei na publicação científica de 5 trabalhos de investigação, participação em Congressos, Reuniões da Associação Portuguesa de Farmacologia e similares, em Portugal e no Estrangeiro. Fui convidado para fazer o Doutoramento(1980), mas o trabalho que estava elaborado e perspectivado, não poderia continuar a ser desenvolvido apenas com a coordenação Departamento de Química da FCL, teria de ser partilhado com a Faculdade de Medicina de Lisboa e a Faculdade de Farmácia de Lisboa. Aqui começariam as complicações. O momento político em Portugal era complicado no pós-revolução, e, as definições interFaculdades eram difusas e algo caóticas. Decidi fazer concurso para Chefe de Serviço do Laboratório de Auditoria de Qualidade de uma grande Empresa Cervejeira Portuguesa – a UNICER. Resultado, fui o finalista selecionado. Tudo isto significa que a área das Ciências de Vida me ensinou a saber distinguir, e, a compreender perfeitamente entre os conceitos de Dispersão – Precisão – Rigor. Ainda, que o cérebro de um Ser, tem um funcionamento processual rigoroso e interdependente, interrelacionado com imensos fatores e variáveis. E, que a Vida tem pouco a ver com a exatidão, mas com o Rigor da gestão integrada de ritmos de vida, que produzem um resultado no final satisfatório. Eu continuei a ser um Bioquímico, com muito gosto pelo que realizava. Muito trabalho laboratorial, muita pesquisa, muita investigação e muita realização pessoal, com muito bons resultados para a Empresa que me acolheu. O Homem só se transformará em Ser Humano se o seu Propósito for transformar a sua Vida e o seu Valor para dar um BOM resultado para a Sociedade que o acolhe. Ou seja, o Tempo e o Valor são os dois fatores mais importantes, que, se bem integrados na mente do Homem, este conseguirá evoluir para a dimensão de Ser Humano com Valor. Essa evolução requer Inteligência – Consciência – Propósito – Valor. Mas só será possível, se a Educação conseguir Educar a mente dos Jovens, transmitindo com seriedade os Valores Humanos e influenciar as mentes desses Seres em construção (nos seus anos fulcrais de Vida), a importância do Valor na realização. Não é uma fórmula, mas um Propósito vasto que a Sociedade deveria ‘abraçar’ com muita empatia e solidariedade. Convém ler o meu texto “A Liberdade e o Amor só existem na dimensão do Valor Humano!”
Clube do Leitor: Em 2010, você viveu de perto os efeitos de uma crise financeira mundial ao encerrar sua empresa de consultoria. No livro, você menciona que a falta de valores contribui para crises sociais e econômicas. De que forma essa sua experiência pessoal como empreendedor moldou o apelo à ação que encontramos em “Vida com Valor”?
Alfredo Sá Almeida: Durante toda a minha Vida Escolar, sempre me interessei por Filosofia. Ajudava-me a compreender a Vida e a desenvolver as minhas ideias com equilíbrio emocional. Essa fase foi muito importante, juntamente com as vivências em Sociedade. Atravessei o período da Revolução em Portugal (1974-1975-1976), com muita responsabilidade, integrado num dos maiores Partidos Políticos Democráticos. Não poderia ser apenas um observador, teria de participar ativamente no processo de reconstrução do meu País. Essas experiências, vivências e contatos com os diferentes sectores da Sociedade, contribuíram para o desenvolvimento da minha Consciência, ajuste da minha Inteligência, melhoria do Propósito e transformação do Valor. Como investigador e interessado pelas ciências da vida, isso constituiu um fulcro importante para a compreensão da Sociedade, seus ritmos e necessidades de resultados com Valor. Eu possuía Formação alargada, experiência Empresarial e conhecimentos, mas não me aprofundei o suficiente no Futuro. A crise financeira elevou-sefortemente em 2008, mas eu tinha começado a minha Empresa – Sá Almeida, Unipessoal Lda. – em 2005, com muita motivação, empenho e propósito de ser influente. A evolução do mundo Global deu-me a maior frustação da minha vida. Foi como se o Mundo tivesse ficado ‘congelado’ de vontade e motivação. O Propósito ficou muito abalado. A Sociedade entrou em colapso. Em 2007 eu estaria a exercer a função de Cuidador de uma Pessoa de Valor idosa, mas doente, com 87% de incapacidade. Mantinha a minha Empresa num funcionamento diminuto, mas viva, até que decidi encerrar a atividade em 2010. Mantive a minha função como Cuidador de Pessoas de Valor idosas e doentes até hoje. Aprendi muito durante estes anos, como Cuidador de Pessoas de Valor. Aprendi que a gestão da economia não está focada na Vida das pessoas, nem na melhoria da evolução do seu Valor. Está apenas focada, no mundo financeiro e no seu desenvolvimento. O mundo financeiro não está diretamente interessado em melhorar a Vida de toda a Sociedade nem o seu Valor Humano. Apenas se encontra focada, fechada sobre o seu umbigo, em aumentar o rendimento do dinheiro. Ora a Vida tem uma dimensão muito mais valiosa que o dinheiro, pois o Homem ainda não a conseguiu descobrir (com todos os seus conhecimentos) noutro Planeta. E, quando pensamos na diversidade de Vida que este Planeta Terra possui, e, em todas as malfeitorias que o Homem produz, conduzindo a uma perda significativa de Vida, para aumentar o rendimento do dinheiro, em detrimento do Valor Humano, a minha frustação transforma-se em incentivo ao Valor da Vida. Ninguém pode (nem deve) ser um simples espectador de tanta calamidade e malfeitorias. O Homem tem valores desfocados da Vida, que apenas o Ser Humano consegue integrar com Valor. Em 2010 decidi pôr em livro o que sentia sobre a Vida e o Futuro.Um desejo de longa data, quando queria escrever sobre o Tempo. “O Homem e o Futuro – O percurso – O ritmo”.
Clube do Leitor: Você defende que a educação deve ser o pilar fundamental para uma convivência harmoniosa. No entanto, hoje vivemos em uma era de “infinitas informações e pouco conhecimento”. Como a sua proposta de educação estruturada e inclusiva se diferencia do que já temos? É possível ensinar solidariedade e respeito aos valores humanos desde a infância na era digital?
Alfredo Sá Almeida: muito bem “a Educação deve ser o pilar fundamental para uma convivência harmoniosa”. Como ainda não conseguimos pôr-nos maioritariamente de acordo globalmente para poder dizer “a Educação é o pilar fundamental para uma convivência harmoniosa e um Futuro com Valor”? As Pessoas quando nascem, não nascem educadas nem com valores humanos. Os Valores Humanos têm de ser ensinados e transmitidos a TODOS durante o crescimento, e as vivências, até adultos (com muita consciência e inteligência). Para, quando lá chegarmos nos podermos compreender com maior facilidade e encontrarmos as melhores soluções para a Vida neste Planeta. A Sociedade está muito carente desse modelo de Educação. Sabemos viver as fantasias com muita facilidade, como se isso nos desse Valor, mas não sabemos viver uma Vida com Valor e construir um Futuro melhor para TODOS? Será que queremos isto assim por muito tempo, sabendo os maus resultados que está a dar para obtermos um ponto de não retorno próximo? Temos de saber distinguir o essencial do acessório! Dá a sensação de que damos muita importância ao acessório. Se nos concentrarmos no funcionamento do nosso corpo, saberemos que há órgãos que são fundamentais para a nossa vida e outros que são acessórios. Apesar de todos serem importantes para um bom funcionamento do organismo. Mas, não conseguimos viver sem um coração, ou, sem um cérebro! Ou será que vamos preferir os robôs humanoides? Quando teremos Dirigentes Democráticos Globais, que saibam dar um ‘murro na mesa’, e, argumentar com a Consciência e Inteligência de Valor para dar um rumo e um Futuro de Valor para a Humanidade? Sem uma Educação de Valor Humano, a Sociedade não estará preparada para entender esses argumentos para a construção de um Futuro de Valor, para toda a Humanidade. Temos uma Declaração Universal de Direitos Humanos, mas não temos uma Declaração Universal de Valores Humanos! Por quê? Qual é a dificuldade? O que impede a ONU de aprovar essa Declaração? Pense bem nisso!
Clube do Leitor: Em sua obra, você critica duramente o consumismo e o individualismo exacerbado, ligando-os à degradação da Biosfera. Para o leitor que sente vontade de mudar, mas se sente impotente diante de problemas globais, como o seu livro o convoca a ser um “agente de mudança” no dia a dia?
Alfredo Sá Almeida: O Homem é um Ser que vive em Sociedade, não tem estrutura mental para viver isolado. O autoritarismo não tem um Futuro de Valor. Cada um de Nós necessita de Ser (Consciência) para saber Fazer (Inteligência) e construir um Futuro com Valor Humano. O Homem não se pode deixar embrutecer na dimensão do dinheiro. Se, cada um de Nós não ganhar Valor Humano, suficiente para conseguir congregar esforços sérios no Coletivo com Valor para o Bem-Comum, será difícil sobrevivermos como espécie. O homo sapiens estará em extinção. Triste, mas verdade. Aumente significativamente o seu Valor Humano, ao longo da sua Vida, para uma boa contribuição para a Sociedade Global. A mudança no sentido da Vida com Valor é a evolução necessária e indispensável.
Clube do Leitor: Vida com Valor: Mudando o Futuro da Humanidade” é o ápice de um projeto que você desenvolve há anos, inclusive com participação em fóruns globais (como a Global Challenges Foundation). Qual é a principal mensagem que você deseja que o leitor leve consigo ao fechar a última página deste livro, pensando nas gerações que ainda virão?
Alfredo Sá Almeida: A nossa Consciência, nas dimensões Individual e Coletiva, necessita de ser mais elevada e de Valor, com qualidade Global, de modo a que a nossa Inteligência consiga descobrir as melhores soluções para perpetuar a Vida com Valor em toda a Humanidade. A nossa Educação necessita dos Valores Humanos constantemente, para nos transformarmos em Seres Humanos, capazes de compreender a importância da Vida neste Universo. Nós precisamos, urgentemente, de saber como conseguir colocarmo-nos de acordo nas questões fundamentais da Vida, para conseguirmos ter um Futuro melhor para TODOS. Difícil, mas possível, sem fantasias! Em breve, terei mais um livro que os ajudará a usar os Valores Humanos, para poderem “Sentir o Futuro – A Consciência superior”.

