Clube do Leitor: O romance apresenta o automobilismo como um cenário de alta performance, mas também como um espaço de disputa simbólica para as mulheres. O que o motivou a escolher o universo da Stock Car como palco para contar a história de Bárbara Ferreiro?
Vanderson Castilho Munhoz: Sempre gostei de automobilismo desde pequeno, eu costumava ver corridas de Fórmula 1, Fórmula Indy, categorias nacionais e me interessava em ver mulheres competindo no meio de homens disputando curvas e freadas. Tive muitas mulheres que competiram nas pistas junto com homens para me inspirar a escrever esta trama. A escolha da Stock Car tem a haver por ser uma categoria nacional e a protagonista da história ser uma brasileira. A obra foi inspirada em várias mulheres que se arriscaram nas pistas desde os anos 1980 até os tempos atuais e percebo que muita coisa mudou. Antigamente, elas não tinham tanto incentivo para o esporte a motor assim e constantemente frequentavam as últimas posições do grid, passando despercebidas nas corridas. A coisa começou a melhorar de uns vinte anos para cá para as mulheres nas pistas brasileiras. Hoje elas tem um espaço maior no automobilismo, que foi muito batalhado e conseguido desde aquela época. Ainda tem muito o que melhorar, mas estamos no caminho certo.
Clube do Leitor: Bárbara surge como uma personagem marcada por múltiplos desafios: piloto, mãe e mulher em um ambiente historicamente masculino. Como foi o processo de construção dessa protagonista para que ela fosse, ao mesmo tempo, forte, humana e atravessada por conflitos reais?
Vanderson Castilho Munhoz: A presença feminina no automobilismo está crescendo consideravelmente dos anos 2000 para cá. Mesmo assim, já tínhamos mulheres antes disto competindo nas pistas e brigando por um pé de igualdade contra os homens. Antes tínhamos muito preconceito com as mulheres nas pistas. Elas enfrentavam muitas situações desagradáveis. Mas foi com iniciativas como a presença de Danica Patrick na Fórmula Indy nos anos 2000, que abriu portas para outras mulheres na categoria e outras categorias do automobilismo mundial, além de outras iniciativas como a antiga W Series e a F1 Academy da FIA, que tem grid exclusivamente feminino, estão abrindo as portas cada vez mais para encorajar mulheres a competir. Temos um longo caminho ainda pela frente, mas parece que estamos no caminho certo para as mulheres, um dia, se destacar mais em condições de igualdade contra os homens. No caso da Bárbara Ferreiro, ela já é uma piloto consolidada nas pistas, mas teve que interromper a carreira, por medidas de segurança para ela e para o bebê, para que ela pudesse ter a criança. E desde então, quis mostrar para os leitores como é ser mãe e ao mesmo tempo piloto de corridas, como ela conciliaria sua carreira com a maternidade. Num mundo onde mulheres conciliam carreira com vida doméstica, quis também mostrar como seria esse cenário nas pistas para as pilotos que correm no automobilismo.
Clube do Leitor: A obra equilibra elementos técnicos do automobilismo com uma abordagem sensível sobre identidade, maternidade e superação. Como você trabalhou essa combinação entre a linguagem das pistas e a dimensão emocional da personagem?
Vanderson Castilho Munhoz: Entendo o mundo do automobilismo, fui me acostumando com os termos usados nas corridas. Procurei misturar as narrativas das corridas, mostrando a personagem no meio deste mundo, onde ela já estaria acostumada com as pistas e buscava uma redenção como forma de mostrar para a categoria que, mesmo ela sendo mãe, ela também poderia ser rápida, competitiva e disputar as vitórias. Também fui lembrando de várias histórias nas pistas de corridas que aconteceram sempre uma história de superação, dramas pessoais vividos por outros pilotos em diversas categorias. Quis mostrar para o leitor que a personagem, mesmo enfrentando muitos desafios como a maternidade nas pistas, poderia sim, render histórias de superação e poder contar para os fãs de automobilismo. Isto que eu quis mostrar, uma mulher que batalha, luta, que enfrenta dilemas, lida com diversos tipos de situações no automobilismo, que tem suas fraquezas e limitações, mas que faz essa busca incessante por reconhecimento profissional valer a pena.
Clube do Leitor: Ao longo da narrativa, aparecem temas como machismo estrutural, pressão midiática e relações de poder no esporte. Até que ponto você pensou o romance também como uma forma de refletir sobre os desafios enfrentados pelas mulheres em ambientes competitivos?
Vanderson Castilho Munhoz: As mulheres, hoje entendo, que estão enfrentando muitos desafios, além de conciliar suas tarefas do cotidiano. A escolha de uma mulher para representá-las no automobilismo tem tudo a haver com o ambiente masculinizado, onde dentro dele, elas enfrentam muitas situações como machismo, ceticismo e misoginia. Eu me acostumei, frequentando antigos fóruns de automobilismo dos anos 2000, a ver o quanto as mulheres sofrem nas pistas, sendo sujeitas a piadas de outros fãs de velocidade, dos mais diversos tipos, algumas brincadeiras até meio que saudáveis, mas outras chegavam a beirar o absurdo, como histórias que elas tinham que correr com “macacão transparente” ou coisas assim que é bom nem ousar falar. E o exemplo da superexposição na mídia de Danica Patrick com fotos dela com pouca roupa nos sites especializados de automobilismo pelo fato dela ser uma mulher e participar de corridas, também faz refletir até que ponto isto ajuda ou atrapalha no marketing pessoal feminino nas pistas, inclusive algumas outras pilotos tentando copiar o exemplo de Danica Patrick, sem conseguir atingir o mesmo sucesso. Então, as mulheres enfrentam estes desafios. Quando elas engravidam, também têm que interromper uma carreira para cuidar da maternidade e depois voltar às pistas. Quis retratar a Bárbara Ferreiro desta forma, como uma piloto que enfrenta a maternidade e ver como o povo reagiria se uma piloto de automobilismo tivesse que enfrentar estes dilemas.
Clube do Leitor: Ao final da trajetória de Bárbara Ferreiro, o leitor percebe que a corrida não acontece apenas na pista, mas também na vida. Que tipo de reflexão ou sentimento você espera despertar em quem acompanha essa saga?
Vanderson Castilho Munhoz: Bárbara Ferreiro, antes de ser piloto da Stock Car Brasil, é também o retrato de um povo que sempre luta, batalha, enfrenta desafios, seja elite ou camadas mais populares de classes sociais, que procura driblar os obstáculos do dia a dia, que trava suas lutas querendo viver uma vida feliz, enfrentando dilemas como casamento e maternidade. A personagem representa a luta incessante de todas as mulheres no ambiente familiar, que enfrenta muitas vezes sozinha ou contando somente com o apoio de seus familiares mais próximos como pais ou irmãos, seus dramas, suas lutas, suas histórias. Ela é uma mulher forte, guerreira, que quer mostrar para o mundo que pode ser uma boa mãe mas também uma excelente profissional. Num mundo onde julgam muito as mulheres, e em alguns casos, até as condenam, é justo podermos refletir sobre o papel feminino na sociedade. Em todo o Brasil, existem muitas mulheres como a Bárbara Ferreiro espalhadas em vários cantos do país, e ao final, ela mostrar que conseguiu enfrentar seus desafios, e vencer. Ela enfrentou muitos dilemas, muitas dúvidas, mas por fim, venceu. Esta é a mensagem que o livro “Garra de Campeã – A saga de Bárbara Ferreiro na Stock Car Brasil” quis mostrar para todos os leitores e leitoras do Brasil.

