Entrevista:
ENTREVISTA COM RENATA GUIMARÃES

A entrevista revela como a música pode se tornar um caminho sensível, acessível e profundamente transformador no processo de aprendizagem de crianças autistas. A partir de experiências reais vividas em contextos educacionais e terapêuticos, Renata Guimarães mostra que a música vai além do desenvolvimento cognitivo: ela promove vínculo, regula emoções, fortalece a escuta e cria um espaço de presença e afeto. Ao longo do diálogo, fica evidente que educar com música é reconhecer a singularidade de cada criança e compreender que aprender também é um ato de encontro e cuidado.

Clube do Leitor: Trajetória e encontro de caminhos
Antes de falarmos sobre o livro, convidamos você a se apresentar aos leitores. Quem é Renata Guimarães e que caminhos pessoais e profissionais a conduziram até o encontro entre educação, música e autismo?

Renata Guimarães: Sou Renata Guimarães, educadora, pesquisadora e apaixonada pelos caminhos que tornam a aprendizagem mais humana e acessível. Minha trajetória sempre transitou entre a educação, a música e o desenvolvimento infantil, mas foi no encontro com crianças no Transtorno do Espectro Autista que esses caminhos realmente se entrelaçaram. Ao longo da prática pedagógica e terapêutica, percebi que o ensino precisa ir além dos métodos tradicionais e que a sensibilidade, a escuta e a criatividade são fundamentais para alcançar cada criança em sua singularidade. Foi nesse percurso que a música deixou de ser apenas um recurso complementar e passou a ocupar um lugar central no meu trabalho.

Clube do Leitor: O nascimento da obra

Em que momento da sua trajetória surgiu a percepção de que a música poderia deixar de ser apenas um recurso complementar para se tornar um instrumento central no processo de aprendizagem de crianças com Transtorno do Espectro Autista?

Renata Guimarães: Essa percepção surgiu de forma muito natural, a partir da observação cotidiana. Notei que, enquanto algumas estratégias pedagógicas não alcançavam determinadas crianças, a música conseguia atravessar barreiras aparentemente intransponíveis. A resposta corporal, emocional e atencional das crianças autistas diante da música era evidente. Com o tempo, compreendi que ela não era apenas um apoio, mas um verdadeiro instrumento de aprendizagem, capaz de organizar o pensamento, favorecer a comunicação e promover avanços significativos no desenvolvimento global.

Clube do Leitor: A música como linguagem de acesso

Ao longo do livro, você demonstra como a música pode “abrir portas” no universo do autismo. Que portas são essas e por que a música se revela uma linguagem tão potente para estabelecer comunicação, vínculo e aprendizagem?

Renata Guimarães: As portas que a música abre são, antes de tudo, as portas do vínculo, da comunicação e da organização interna da criança. No Transtorno do Espectro Autista, nem sempre a linguagem verbal é o principal meio de acesso ao outro e ao aprendizado. A música, por sua natureza rítmica, previsível e emocionalmente significativa, cria um canal seguro de conexão, permitindo que a criança se sinta acolhida e compreendida.

Por meio da música, a criança acessa estados de atenção, regula emoções, organiza o corpo e o pensamento e, a partir disso, torna-se mais disponível para a interação social e para a aprendizagem. A música não exige respostas imediatas nem desempenho; ela convida à presença, ao encontro e à experiência. Por isso, revela-se uma linguagem tão potente: porque estabelece comunicação antes das palavras, constrói vínculo antes da instrução e possibilita aprendizagem a partir do afeto e da escuta sensível.

Clube do Leitor: Experiência prática e transformação

A obra apresenta vivências reais em contextos educacionais e terapêuticos. Poderia compartilhar uma experiência marcante em que o uso da música provocou mudanças significativas no desenvolvimento ou no aprendizado de uma criança autista?

Renata Guimarães: Uma experiência que me marcou profundamente foi acompanhar uma criança que apresentava grande resistência à interação e ao contato visual. Por meio de atividades musicais simples, repetitivas e estruturadas, essa criança começou a demonstrar interesse, antecipação e, aos poucos, interação com o outro. O olhar surgiu, o sorriso apareceu e a aprendizagem começou a acontecer de forma espontânea. Foi um momento muito claro de que a música não apenas ensina, mas também conecta.

Clube do Leitor: Aprendizagem integral

De que maneira a música contribui não apenas para o desenvolvimento cognitivo, mas também para os aspectos emocionais, sociais e afetivos das crianças com Transtorno do Espectro Autista?

Renata Guimarães: A música atua de forma integral no desenvolvimento da criança autista. Além dos ganhos cognitivos — como atenção, memória e organização do pensamento — ela contribui significativamente para o desenvolvimento emocional, social e afetivo. A música regula emoções, reduz níveis de ansiedade, fortalece o vínculo com o educador ou terapeuta e promove experiências de pertencimento. Aprender, nesse contexto, deixa de ser apenas um processo intelectual e passa a ser uma experiência vivida com o corpo e com o afeto.

Clube do Leitor: Um livro para diferentes leitores

Seu livro dialoga diretamente com professores, famílias, terapeutas e cuidadores. Que compreensão essencial você espera que cada um desses públicos leve consigo após a leitura?

Renata Guimarães: Espero que professores encontrem no livro segurança e inspiração para inovar em suas práticas. Que as famílias se sintam acolhidas e compreendam que existem caminhos possíveis e sensíveis para o desenvolvimento de seus filhos. E que terapeutas e cuidadores percebam a música como uma aliada potente, acessível e transformadora. A compreensão essencial que desejo transmitir é que toda criança é capaz de aprender, desde que respeitada em sua forma própria de ser e de se expressar.

Clube do Leitor: Linguagem acessível e empatia

A escrita da obra se destaca pela linguagem simples, sensível e acolhedora. Essa foi uma escolha intencional? Qual a importância de tornar esse tema acessível para quem vive o cotidiano da educação e do cuidado?

Renata Guimarães: Sim, essa foi uma escolha totalmente intencional. Falar sobre autismo, educação e música exige responsabilidade, mas também empatia. Tornar o conteúdo acessível é fundamental para que ele alcance quem realmente vive o cotidiano da educação e do cuidado. Acredito que o conhecimento só cumpre seu papel quando pode ser compreendido, aplicado e sentido. Por isso, optei por uma escrita simples, acolhedora e próxima da realidade dos leitores.

Clube do Leitor: Desmistificando o uso da música

Ainda existe a crença de que é necessário ter formação musical para utilizar a música como recurso pedagógico. O que você diria para educadores e familiares que desejam aplicar a música na aprendizagem, mas acreditam não ter conhecimento técnico suficiente?

Renata Guimarães: Não é preciso ser músico para usar a música como recurso pedagógico. O mais importante é a intenção, a escuta e a sensibilidade. A música está presente no cotidiano de todos nós e pode ser utilizada de forma simples, por meio de canções, ritmos, sons do corpo e objetos sonoros. A musicalidade é algo humano, acessível e que pode — e deve — ser utilizada por qualquer educador ou familiar disposto a aprender junto com a criança.

Clube do Leitor: Educação que envolve afeto e escuta

Ao longo do livro, fica evidente que educar também envolve sensibilidade, escuta e vínculo. Na sua visão, de que forma a música contribui para resgatar o afeto e a presença no processo educativo?

Renata Guimarães: A música resgata o afeto porque ela exige presença. Quando cantamos, tocamos ou ouvimos música com uma criança, estamos verdadeiramente ali, no momento presente. Esse estado de presença favorece a escuta sensível e o vínculo, elementos essenciais no processo educativo, especialmente no autismo. A música humaniza o ensinar e o aprender, lembrando-nos de que educar é, antes de tudo, um ato de encontro.

Clube do Leitor: Mensagem final aos leitores

Para encerrar, que mensagem você deixaria para professores, famílias e profissionais que convivem com crianças autistas e seguem em busca de caminhos mais humanos, sensíveis e eficazes para ensinar e aprender?

Renata Guimarães: Gostaria de dizer aos professores, famílias e profissionais que caminham ao lado de crianças autistas que nunca subestimem o poder da sensibilidade. Existem caminhos possíveis, humanos e eficazes, e a música é um deles. Que possamos olhar para cada criança com respeito, escuta e afeto, reconhecendo seu potencial e celebrando cada pequena conquista. Educar com música é educar com o coração aberto.

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