Escolhas e Destinos é um romance que se constrói em movimento. Desde o início, a narrativa conduz a protagonista por caminhos que misturam memória, sensações e escolhas possíveis. Não há atalhos fáceis: há estradas de pedra, silêncios, pausas, retornos. Maria — apenas Maria — atravessa décadas aprendendo que a vida não se decide de uma vez, mas se refaz continuamente.
A história tem início em 1968, quando Maria, casada, grávida e mãe de um filho pequeno, deixa o interior de Minas Gerais rumo ao interior de São Paulo. O que parecia promessa de estabilidade se transforma em uma sucessão de desafios: o adoecimento e a deficiência do filho, as limitações impostas à sua autonomia, a busca por independência financeira, o trabalho, o artesanato, a separação conjugal. Como tantas mulheres brasileiras, Maria aprende a sustentar a vida enquanto adia sonhos.
É apenas muitos anos depois que o desejo de estudar retorna com força. Aos quarenta anos, quando a maioria já acredita que “o tempo passou”, Maria decide fazer o curso de Letras. O ingresso na faculdade não vem sem medo: ela se sente deslocada entre jovens, questiona sua capacidade, treme ao falar em sala, carrega as marcas de uma formação interrompida. Ainda assim, permanece. Estuda mais do que todos, lê tudo, aprofunda-se. O que começa como insegurança se transforma, pouco a pouco, em confiança construída no esforço diário.
Maria Nivalda narra esse processo sem romantização. O percurso da educação aparece como ele é para tantas mulheres: exaustivo, desigual, atravessado por trabalho, cuidado com os filhos e responsabilidades domésticas. Quando Maria passa a atuar como professora, encontra as salas “mais difíceis”, os estudantes invisibilizados, as estruturas que reproduzem desigualdades. Ainda assim, insiste. A educação, aqui, não surge como solução mágica, mas como campo de resistência e possibilidade.
Em paralelo, o romance apresenta o Grupo das Marias, um espaço coletivo em que mulheres compartilham histórias, dores e escolhas. É nesse encontro que o sofrimento deixa de ser apenas individual e ganha dimensão social. O apoio entre mulheres revela que recomeçar não é um gesto solitário, mas um processo que se fortalece no vínculo, na escuta e na partilha.
A escrita de Maria Nivalda carrega a ética de quem aprendeu, na Psicologia e na pesquisa sobre inclusão, a escutar sem simplificar. A narrativa trata temas como deficiência, separação, envelhecimento, educação e autonomia com cuidado, evitando julgamentos e soluções fáceis. O leitor é convidado a compreender que ninguém escolhe a partir de um terreno neutro — e que toda trajetória é atravessada por limites históricos, sociais e afetivos.
Ao final, Escolhas e Destinos afirma que a vida segue em roda. Entre perdas e renascimentos, medo e coragem, Maria descobre que nunca é tarde para aprender, ensinar e ocupar novos lugares no mundo. O romance deixa um convite silencioso: olhar para as próprias escolhas com mais gentileza e reconhecer que recomeçar, muitas vezes, é o gesto mais profundo de resistência.
Escolhas e Destinos é um livro sobre mulheres que seguiram adiante mesmo quando tudo parecia dizer que não era mais tempo — e sobre a força discreta de quem escolhe continuar.





