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Preto não vai pro céu… Uma reflexão sobre o racismo em igrejas evangélicas

Ficha Técnica

Título: Preto não vai pro céu... Uma reflexão sobre o racismo em igrejas evangélicas
Autor: Carmelindo Rodrigues Da Silva
Editora: Independently Published

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Em Preto não vai pro céu, Carmelindo Rodrigues da Silva empreende um movimento de escavação que é, simultaneamente, memorialístico e analítico. A obra não se limita a ser um repositório de traumas individuais; ela se constitui como uma investigação aguda sobre como o racismo estrutural se infiltra nas frestas do sagrado e como a linguagem religiosa é instrumentalizada para a manutenção de hegemonias raciais.

O problema central que o texto mobiliza reside na tensão entre a promessa de universalidade da fé cristã e a exclusão sistemática operada por uma ideologia historicamente associada à valorização da branquitude.

A narrativa inicia-se pelo impacto da voz rascante de uma cantiga injuriosa: “Preto não vai pro céu, nem que seja rezador!”. A letra dessa cantiga, longe de ser apenas uma brincadeira de mau gosto, funciona como um dispositivo de desqualificação ontológica. Nesse sentido, o autor revela como a linguagem popular e religiosa atua para destituir o sujeito negro até de sua esperança metafísica. A cor aprovada para o céu torna-se, na voz do racista, um critério de mérito, revelando a perversidade de uma teologia que justifica o privilégio terreno através de uma suposta hierarquia divina.

A estrutura do livro, que entrecruza o relato autobiográfico com a pesquisa histórica, permite observar a transição do autor do catolicismo tradicional para o protestantismo evangélico. Carmelindo Rodrigues da Silva descreve com precisão o rigor do catecismo e o ambiente devocional de sua infância, mas pontua que nem mesmo o domínio das doutrinas (“rezar o Pai Nosso”, “recitar o Credo Apostólico”) era suficiente para blindar a criança negra contra a violência simbólica.

A obra revela que a igreja, muitas vezes, em vez de ser o espaço da libertação prometido nos versículos de Mateus e Gálatas citados na epígrafe, torna-se o lugar da omissão ou da reprodução do racismo. Existe uma contradição latente entre a “boca que honra com os lábios” e o coração que mantém o preconceito, um silêncio institucional que o autor desafia ao trazer sua trajetória de educador e militante para o centro do debate teológico.

A forma do livro, que associa a memória pessoal à crítica social, é o próprio instrumento de resistência: escrever é, neste contexto, o ato de reivindicar um lugar no mundo e no transcendente que foi historicamente negado.

Preto não vai pro céu é, portanto, uma obra que provoca o leitor contemporâneo a confrontar as ambiguidades de suas próprias instituições. Ao desvelar as raízes de uma teologia justificadora da exclusão, Carmelindo Rodrigues da Silva não apenas narra uma vida, mas realiza uma crítica cultural necessária sobre como a religiosidade brasileira foi forjada sob a égide da escravidão.

A relevância estética e intelectual da obra reside em sua capacidade de transformar o grito rascante do preconceito em um discurso articulado de conscientização, lembrando que a verdadeira verdade que liberta exige, antes de tudo, o reconhecimento do outro como igual perante o humano e o divino.

Marília Costa

Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia

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