Livro
Quando o amor dura um instante: Jorge Scarasati e a delicadeza dos “átimos” em uma sociedade distraída

Ficha Técnica

Título: Átimos de Amor: Instantes que transformam (Os Códigos de Lumna Livro 1)
Autor: Jorge Scarasati
Editora: JSP Desenvolvimento Humano

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Em Átimos de Amor, o escritor propõe reconhecer nos pequenos gestos cotidianos uma forma de presença capaz de interromper, ainda que por instantes, o automatismo da vida contemporânea.

Talvez um dos paradoxos do nosso tempo seja este: estamos próximos nas telas, distantes no instante, parece cada vez mais difícil estar verdadeiramente presente. A atenção se divide entre telas, notificações, compromissos, expectativas e uma sucessão quase ininterrupta de estímulos. A vida acontece enquanto pensamos na próxima tarefa, na próxima mensagem, no próximo objetivo. É nesse cenário que Jorge Scarasati constrói, em Átimos de Amor: Instantes que transformam, uma reflexão sobre aquilo que pode estar desaparecendo não necessariamente da experiência humana, mas da nossa capacidade de percebê-la.

A pergunta que atravessa a obra poderia ser formulada assim: quantas manifestações de amor passam por nós todos os dias sem que sequer as reconheçamos?

O título oferece a primeira chave para compreender a proposta. Um átimo é um intervalo mínimo de tempo, algo que acontece quase num piscar de olhos. Scarasati se apropria dessa ideia de brevidade para nomear pequenos acontecimentos que interrompem a lógica automática do cotidiano: um carinho sincero, uma gentileza sem plateia, uma cumplicidade inesperada, uma coragem silenciosa.

Não são acontecimentos extraordinários. E talvez esteja justamente aí uma das escolhas mais interessantes do livro.

Em vez de procurar o amor nas grandes declarações ou nos acontecimentos excepcionais, Átimos de Amor volta o olhar para aquilo que facilmente poderia passar despercebido. O amor deixa de ser pensado apenas como sentimento e passa a ser observado também em sua manifestação concreta, por meio de atitudes e virtudes.

Essa perspectiva conduz Scarasati a uma distinção importante entre duas formas de amar. De um lado estaria aquilo que denomina “falso amor”: condicionado, controlado e atravessado por expectativas, necessidades ou desejos pessoais. Do outro, o “amor genuíno”, compreendido como livre, espontâneo e não subordinado àquilo que se espera receber em troca.

A oposição ganha uma dimensão especialmente contemporânea quando colocada diante de uma sociedade em que tantas experiências são convertidas em exposição. Fotografamos encontros. Publicamos afetos. Compartilhamos gestos de solidariedade. Registramos intimidades. Isso não significa, evidentemente, que aquilo que se torna público seja necessariamente menos verdadeiro. Mas o livro provoca uma pergunta incômoda e pertinente: o que fazemos quando não existe plateia?

É nesse território silencioso que os “átimos” parecem adquirir maior força.

Uma gentileza que ninguém registra. Um cuidado que não produz reconhecimento. Uma atitude generosa que termina no próprio instante em que acontece.

O valor do gesto, nesse caso, não está na repercussão. Está na experiência que produz.

Talvez não falte amor

Em determinado momento, Scarasati sintetiza sua proposta em uma frase:

“A verdade é que não falta amor. Falta presença.”

A afirmação desloca o problema.

Talvez as pequenas manifestações de humanidade não tenham desaparecido. Talvez estejamos apenas menos disponíveis para percebê-las. O autor relaciona essa perda de atenção ao ritmo da sociedade contemporânea e discute, nas páginas iniciais, questões como excesso de telas, fragmentação da atenção, esgotamento e aceleração da vida. Nesse contexto, estar presente deixa de significar simplesmente ocupar determinado espaço físico. Presença passa a significar atenção consciente ao que acontece enquanto acontece. Perceber um átimo exige, portanto, uma pequena interrupção. É necessário sair por alguns segundos da reação automática para observar. E esse movimento possui duas direções. Podemos reconhecer aquilo que recebemos dos outros, mas também aquilo que oferecemos.

O livro chama atenção para pessoas que manifestam cuidado, generosidade ou sensibilidade continuamente e, ainda assim, não reconhecem essas características em si mesmas. Aprender a identificar os “átimos”, nessa perspectiva, também pode significar modificar a maneira como o indivíduo interpreta a própria experiência.

Quando as virtudes se tornam linguagem

É nesse ponto que a discussão deixa o campo exclusivamente afetivo e se aproxima da filosofia. Para Scarasati, os “átimos de amor” encontram nas virtudes uma espécie de linguagem. Coragem, generosidade, compaixão e outras qualidades humanas deixam de ser apenas conceitos abstratos quando se manifestam em situações concretas. O amor, portanto, não precisa necessariamente ser declarado. Pode ser reconhecido naquilo que alguém escolhe fazer.

Scarasati recupera a ideia aristotélica de eudaimonia, associada ao florescimento humano. A felicidade, nessa perspectiva, não se reduz ao prazer imediato, mas se relaciona à construção de uma existência orientada por coerência, propósito e prática das virtudes.

Átimos de Amor não se limita a defender que precisamos “amar mais”. O que está em jogo é a possibilidade de perceber como escolhas aparentemente pequenas participam da construção das relações que estabelecemos conosco e com os outros.

 

Jorge Scarasati na Bienal Internacional do Livro de São Paulo

Átimos de Amor: Instantes que transformam é o primeiro volume da série Os Códigos de Lumna, de Jorge Scarasati.

Em setembro, o autor estará entre os participantes da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada de 4 a 13 de setembro de 2026, no Distrito Anhembi. Scarasati terá presença no stand do Espaço Leia Mais, Rua E, Stand 10, levando ao público uma obra que convida justamente a algo cada vez mais raro em meio à velocidade contemporânea: observar.

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