Clube do Leitor: Você convida o leitor a um mergulho interno e ao despertar de um novo jeito de viver. Como você define esse novo jeito de viver que você propõe? E qual foi sua própria jornada para chegar a esse lugar de leveza e autenticidade?
Mônica Cechinato: Quando eu falo sobre um novo jeito de viver, eu não estou falando de uma vida perfeita, sem dor ou desafios, mas de uma forma mais consciente, mais presente e mais verdadeira de se relacionar com tudo isso. Esse novo jeito de viver é sair do automático e começar a se escutar. É parar de buscar fora aquilo que só pode ser construído dentro. É entender que a felicidade não é um destino, mas uma forma de caminhar, mesmo nos dias difíceis.
Pra mim, essa jornada não começou na leveza, começou na dor. Eu precisei me perder muitas vezes, me desconectar de mim mesma, para depois começar um caminho de volta. Um caminho de reconexão com a minha essência, com a minha verdade, com aquilo que eu realmente sentia e não com aquilo que esperavam de mim.
Ao longo desse processo, fui aprendendo a acolher minhas emoções, a respeitar meus limites, a me perdoar e principalmente, a me escolher.
E foi aí que a leveza começou a surgir. Não porque a vida ficou mais fácil, mas porque eu mudei a forma de viver a vida.
Hoje, o que eu proponho no livro é exatamente isso: um convite para que cada pessoa faça esse mergulho interno, se reconecte consigo mesma e descubra a sua própria forma de viver com mais verdade, presença e amor.”
Clube do Leitor: Como funciona o processo de revisitar memórias no seu livro? Como as memórias se tornam ferramentas de cura, consciência e libertação?
Mônica Cechinato: “No livro, revisitar memórias através da técnica de terapia (investigações do inconsciente) é um convite para olhar para ele com novos olhos.
As memórias, muitas vezes, ficam registradas dentro de nós carregadas de dor, culpa, medo ou até incompreensão. E quando elas não são acolhidas, elas continuam influenciando nossas escolhas, na vida atual, em nossos relacionamentos, na nossa profissão e a forma como nos enxergamos, muitas vezes de maneira inconsciente.
O que eu proponho é um reencontro com essas memórias, mas com presença e compaixão.
Ao revisitar essas experiências, o leitor começa a perceber que não é mais aquela pessoa de antes. Ele amplia a consciência, ressignifica o que viveu e, aos poucos, vai se libertando das cargas emocionais que estavam presas ali.
A memória deixa de ser um lugar de dor e passa a ser um lugar de entendimento, e é nesse processo que a cura acontece. Porque quando eu olho para minha história sem julgamento, eu paro de lutar contra ela e começo a integrar quem eu sou por inteiro.
Então, no livro, as memórias se tornam ferramentas de libertação porque elas nos devolvem algo muito poderoso: a consciência de que podemos escolher uma nova forma de viver, mesmo tendo vivido o que vivemos.”
Clube do Leitor: Você trabalha com a transformação de dor em força, passado em sabedoria e vida em plenitude. Como você trabalha com a dor do leitor? Qual é o papel da vulnerabilidade nesse processo?
Mônica Cechinato: Eu não trabalho com a dor do leitor tentando eliminá-la, eu trabalho ensinando a escutá-la. A dor, no livro, não aparece como algo a ser evitado, mas como uma linguagem da alma. Ela revela onde houve ruptura, onde faltou acolhimento, onde algo dentro de nós ainda precisa ser visto.
O que eu proponho é um encontro honesto com essa dor, sem máscaras, sem fuga, sem pressa de “ficar bem”. E é aí que entra a vulnerabilidade. Porque se permitir sentir, reconhecer fragilidades e olhar para si com verdade exige coragem. A vulnerabilidade não é fraqueza, ela é o portal da transformação. É quando o leitor se permite baixar as defesas que ele começa, de fato, a se enxergar. E esse reconhecimento já é o início da cura.
Ao longo do livro, eu conduzo esse processo com acolhimento, mostrando que é possível atravessar a dor sem se perder nela, e mais do que isso, transformá-la em força, em consciência e em presença.
A dor, quando acolhida, deixa de ser peso e se torna caminho e a vulnerabilidade é o que torna esse caminho real, humano e possível.”
Clube do Leitor: Quais são os padrões mais comuns que você identifica nos seus leitores? E como o seu livro os ajuda a reconhecer e romper com essas crenças limitantes?
Mônica Cechinato: Os padrões mais comuns que eu identifico nos leitores estão muito ligados à desconexão de si mesmos. São pessoas que aprenderam a se adaptar demais, a agradar, a silenciar o que sentem e, com o tempo, acabam vivendo uma vida que não representa quem realmente são.
Também percebo crenças muito fortes como ‘eu não sou suficiente’, ‘eu preciso dar conta de tudo sozinho’, ‘eu não mereço ser feliz plenamente’. Essas ideias vão se tornando verdades internas e passam a guiar escolhas, relacionamentos e até a forma como a pessoa se enxerga.
O livro ajuda a romper esses padrões não impondo respostas prontas, mas despertando consciência. Através das reflexões, das emoções e do convite ao mergulho interno, o leitor começa a se perceber. Ele identifica esses padrões dentro de si, muitas vezes pela primeira vez. E quando há consciência, surge a possibilidade de escolha.
A pessoa entende que essas crenças não são a sua essência, mas construções que foram sendo formadas ao longo da vida. E, a partir disso, ela começa um movimento de libertação: questiona, ressignifica, se reposiciona e vai, aos poucos, construindo uma nova forma de viver, mais alinhada com quem ela realmente é.
O livro não transforma ninguém por si só, mas ele abre portas internas que, uma vez acessadas, dificilmente se fecham novamente.”
Clube do Leitor: A felicidade, em sua obra, deixa de ser um ideal distante e se torna um reencontro íntimo com a beleza da própria alma. Como você diferencia essa abordagem de outras que tratam a felicidade como um objetivo a ser alcançado?
Mônica Cechinato: Na minha obra, a felicidade deixa de ser um objetivo a ser conquistado e passa a ser um estado de reconexão. Muitas abordagens ensinam que a felicidade está ligada ao que a gente alcança, conquista ou realiza como se ela estivesse sempre no futuro, dependendo de algo externo para existir. O que eu trago é um olhar diferente: a felicidade como um estado de ser. Como um retorno para dentro. Para a essência. Para a verdade de quem somos, além das expectativas, das dores não curadas e das máscaras que fomos criando ao longo da vida.
Ela não nasce quando tudo está perfeito, ela começa a surgir quando a gente se permite ser inteiro. Quando a gente para de fugir de si mesmo, acolhe a própria história, integra luz e sombra e encontra beleza até nas partes que antes rejeitava.
Essa felicidade não é eufórica o tempo todo, nem constante, mas é mais real, mais estável e mais profunda. Porque ela não depende do que acontece fora, mas da forma como a gente se relaciona com o que vive por dentro. Então, mais do que ensinar a ser feliz, o livro convida o leitor a se reencontrar e nesse reencontro, a felicidade deixa de ser uma busca e passa a ser uma presença.”
Clube do Leitor: Você menciona que para evoluir é preciso estar disposto a enfrentar os medos e viver intensamente, inclusive a dor que ensina. Por que a dor é tão importante nessa jornada de transformação?
Mônica Cechinato: A dor é importante na jornada de transformação não porque precisamos sofrer, mas porque ela revela o que precisa ser olhado. Ela é, muitas vezes, o primeiro sinal de que algo dentro de nós está em desalinhamento com a nossa verdade, com nossos limites, com a forma como estamos vivendo.
A dor interrompe o automático. Ela nos convida a parar, a sentir, a questionar. E, embora seja desconfortável, é justamente nesse espaço que nasce a possibilidade de mudança.
No livro, eu não coloco a dor como algo a ser romantizado, mas como uma experiência que, quando acolhida com consciência, pode se tornar uma grande professora. Porque é através dela que a gente acessa partes profundas da nossa história, entende padrões, reconhece feridas, e começa, de fato, um processo de cura. Mas isso só acontece quando existe disposição para atravessar e não fugir.
Enfrentar os medos, sentir o que precisa ser sentido e viver com verdade exige coragem. E é essa coragem que transforma. A dor, por si só, não transforma ninguém. Mas a forma como a gente escolhe viver essa dor, pode nos levar para um lugar de mais consciência, mais força e mais autenticidade. E é isso que eu convido o leitor a experimentar: não uma vida sem dor, mas uma vida onde até a dor tem sentido e pode se tornar caminho de evolução.”

