Origem do livro
Clube do Leitor: Como surgiu a ideia de escrever Preto não vai pro céu? Houve um momento específico que despertou o desejo de transformar essa vivência em livro?
Carmelindo Rodrigues da Silva: Em 1977 eu estava cursando a graduação na Universidade Metodista de Piracicaba/UNIMEP. Naquela época a UNIMEP não devia ter mais que dez alunos afrodescendentes. No entanto aqueles alunos/as conversavam, e a questão do preconceito e racismo na educação e sociedade dominou nossas discussões, apresentando-se como obstáculos incontornável para ascensão social de afrodescendentes, mesmo após conclusão do curso superior. Preocupações como essas levaram à criação do movimento contra o racismo universitário da UNIMEP em 1979. Eu me tornei o seu primeiro coordenador. Desta data em diante, eu permaneci na militância contra o racismo. Coordenei a Pastoral de Combate ao Racismo da Igreja Metodista da Quarta Região Eclesiástica; Coordenei a Pastoral Nacional de Combate ao Racismo da Igreja Metodista e, por cinco anos até 2023, presidi a Comissão Permanente de Heteroidentificação para Cotas Raciais da Universidade Federal Rural do Semi-Árido – UFERSA. Creio que mais de quarenta anos de militância me ensinaram algumas coisas sobre esta longa duração do racismo dentro da sociedade brasileira e, em especial, no meio evangélico, onde tenho estado presente desde os anos 1950, quando minha mãe se converteu em uma igreja evangélica metodista. Nos últimos três anos, minhas filhas e minha esposa que muitas vezes estiveram comigo, e foram colaboradoras em encontros de formação de lideranças antirracistas, depois de tantas experiências vivenciadas e ouvirem os meus relatos dos trabalhos realizados, passaram a insistir para que eu escrevesse, especialmente, sobre o racismo no meio evangélico. Elas sabiam o quanto me incomodava e ainda incomoda a inércia e a omissão de muitas lideranças evangélicas frente ao preconceito e racismo, ainda tolerado como “desvio menor e desculpável” dentro de muitas igrejas. Aceitei o desafio…
Memória e escrita
Clube do Leitor: A obra articula memória autobiográfica e reflexão histórica. Como foi o processo de revisitar essas experiências e transformá-las em narrativa literária?
Carmelindo Rodrigues da Silva: Tenho observado que nos últimos quinze anos tem surgido muitas publicações denunciando a permanência do racismo na sociedade brasileira. Esse momento era bem esperado e é muito bom. No entanto, percebo que muito do divulgado são teorizações bem fundamentadas, porém carentes de experiência pessoal. Sobre o racismo no meio evangélico, percebe-se um contorcionismo para evitar falar e tratar da ocorrências que surgem. Falar do problema sem discutir as causas e tratar daqueles/as que os praticam se torna uma ação ineficaz. Dessa forma, ao decidir escrever sobre o racismo meio evangélico procurei me colocar na narrativa, escrever na primeira pessoa. Assim, procurei desvelar como o racismo impactou a minha vida, iniciando quando ainda criança dos anos 1950 na sociedade e na comunidade evangélica que eu e minha mãe tínhamos sido admitidos. Obviamente, a minha experiência com o racismo que começou há tantos anos continuou sendo relatada em minha escrita até por ocasião do fechamento desse livro em 2025. Quanto à reflexão histórica, ela é imprescindível. Somente conhecendo a nossa história, teremos base segura para a construção de uma identidade nacional. Conhecendo o passado, poderemos com segurança, atuar nas raízes dos problemas que nos afligem e viver melhor. Temos no Brasil um enraizamento cultural muito sério e pouco conhecido. O racismo estrutural, tão bem trabalhado atualmente por alguns escritores é uma consequência desse enraizamento. Ao escrever, considerei a afirmação do renomado historiador Edward Hallet Carr, que registrou: Todo ser humano, em qualquer momento da história ou da pré-história, nasce numa sociedade, sendo por ela moldado logo a partir dos primeiros anos de vida.
Religião na sua trajetória
Clube do Leitor: A religiosidade ocupa um lugar importante no livro. De que maneira sua vivência espiritual influenciou sua formação pessoal e intelectual?
Carmelindo Rodrigues da Silva: Eu sou cristão de raiz protestante, atualmente mais conhecidos como evangélicos. Percebo que o cristianismo tem sido muito contestado atualmente. Principalmente, por erros que a igreja cometeu em séculos passados e, atualmente, porque a omissão continua acalentando algumas inconformidades com o cristianismo. No entanto, ter me tornado um cristão evangélico, metodista, juntamente com minha mãe naquele contexto dos anos 1950 e naquela comunidade de Manhuaçu, mudou a minha vida para melhor. Lideranças daquela igreja, preocupadas seriamente com a orientação bíblica do amor ao próximo, me ensinaram não só os valores espirituais que ainda os mantenho pela fé em Cristo, mas foram grandes incentivadores para que eu prosseguisse avançando no ensino secular. Com certeza, eu não teria chegado aonde cheguei sem determinação que tive, e sem o decidido apoio daquela comunidade de fé.
Literatura como diálogo
Clube do Leitor: O que espera provocar no leitor ao abordar temas tão sensíveis dentro da experiência religiosa e social brasileira?
Carmelindo Rodrigues da Silva: A Reforma Protestante foi muito mais do que um cisma com a igreja hegemônica da época. A Reforma provocou grandes mudanças no mundo, principalmente, no meu entendimento, na área da educação. Ocorre que uma reforma não se esgota em si mesma. Ela precisa continuar acontecendo, reforma dentro de reforma. No entanto, no século XVI, ano que aconteceu a Reforma Protestante, o escravismo estava em franco crescimento na Europa e nas Américas. O não posicionamento sobre essa prática antivida, grave pecado, proporcionou o enriquecimento de muitos e o sofrimento e morte de milhares. Mais tarde, no século XVIII, um também reformador, João Wesley levantará a voz contra a infâmia do escravismo e sobre pecado que se cometia. Ao escrever “Preto não vai pro céu”, eu espero provocar no leitor, especialmente no cristão evangélico, um despertar para a máxima do ensino de Jesus Cristo. É impossível amar a Deus que não vemos sem amar o nosso próximo que vemos e convivemos.
Mensagem final
Clube do Leitor: Se pudesse resumir em uma ideia central o que deseja que permaneça com o leitor após a leitura da obra, qual seria?
Carmelindo Rodrigues da Silva: O racismo e o preconceito, explícitos ou matizados, têm sidos grandes obstáculos para oportunidades e crescimento humano. Suas ações produzem grande sofrimento e ceifa muitas vidas. Espero que os leitores entendam o esclarecimento que Jesus Cristo deu ao fariseu, um religioso, que quis colocá-Lo à prova: o primeiro mandamento é, com certeza, amar a Deus sobre todas as coisas. Porém, existe um segundo mandamento que é igual ao primeiro – amar o teu próximo como a ti mesmo. Jesus concluiu dizendo que: “destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”. Desejo que todo/a leitor/a ao professar sua fé, ao afirmar que ama a Deus, entenda que não amando ao seu próximo a sua fé é sem valor, falsa. Que a prática do amor ao próximo, muito mais que acabar com o racismo e preconceito, fará a humanidade mais tolerante e nos reaproximará do nosso Criador, tornando a terra próxima do paraíso perdido.


Boa noite Carmelindo, sua obra literária é um relato do nosso cotidiano, mas que estamos mudando com esses tipos de atitudes, parabéns pela obra literária.