20/05/2026

Clube do Leitor entrevista o escritor Eder Miranda

Entre aplausos e cobranças: o lado invisível de criar um atleta

 

Clube do Leitor: Ponto a Ponto nasce de uma exposição muito íntima da sua relação com seu filho e com o esporte. Em que momento você percebeu que aquilo que chamava de apoio já havia se transformado em pressão?

Eder Miranda: Você tem razão quando diz “exposição muito íntima”. É mesmo.  Muitas famílias me mandam mensagens após a leitura salientando a coragem nas palavras, a coragem em compartilhar tudo isso. Eu não desejo ter um monte de páginas guardadas na estante. Eu realmente desejo que esta obra toque fundo e contribua na jornada de outros pais que passam por situações bem similares. A gente cria os filhos para serem fortes, para serem resilientes, mas, especialmente para serem nossos parceiros. Em algum momento ficou claro que a distância entre nós só aumentava. E, como eu o amo, eu não poderia deixar de entender o porquê. O erro estava em mim. Fiz o que tinha que ser feito para resgatar.

 

Clube do Leitor: O livro desmonta uma imagem romantizada do esporte de alto rendimento e mostra o impacto emocional que ele provoca também nas famílias. O que mais te incomodava nesse “teatro da perfeição” vendido nas redes sociais e nos bastidores das competições?

Eder Miranda: As lentes estão sempre voltadas para os atletas. Um caso pouco noticiado é a história da família do Novak Djokovic, o maior vencedor da história do tênis mundial. O pai pegou USD 10K emprestados com agiotas para que ele pudesse ir treinar nos EUA. Imagine você o que se passou na cabeça, no coração da família naquela época? 
O caso do nosso ídolo Gustavo Guga Kuerten. O pai teve um infarto na quadra quando o Guga era muito jovem. A mãe fez de tudo para que ele continuasse no esporte.  Como será que ela conseguiu superar tudo isso?
A gente vê casos similares em vários esportes, em todas as classes sociais. Quero mostrar para os leitores que não há “glamour” em ter o filho viajando, treinando duro, aparecendo as vezes na televisão e nas notícias. Isso é  a ponta de um iceberg que esconde uma avalanche de sentimentos que envolve toda a família. E isso não é falado nas redes sociais.

 

Clube do Leitor: Você escreve sobre o “ritual da destruição no carro”, um dos momentos mais fortes da obra. Por que decidiu expor cenas tão dolorosas e até constrangedoras da sua própria trajetória como pai?

Eder Miranda: Eu decidi expor porque tenho sim o desejo quase adolescente de mudar o mundo. : ) Só relatos sinceros como verdadeiros testemunhos de vida é que conseguem tocar o coração das pessoas.  Quero encorajar mais pais a conversarem abertamente sobre isso com a família. Esposas com maridos, maridos com esposas, com os filhos. É um sonho que se sonha e se constrói juntos. E quando for um pesadelo, que também a gente passe as noites em claro juntos.  

 

Clube do Leitor: Em diversos trechos, o livro sugere que muitos pais acabam projetando nos filhos sonhos que eram originalmente seus. Você acredita que existe uma linha clara entre incentivo e projeção? Como identificá-la antes que a relação se desgaste?

Eder Miranda: Eu reitero em todas as entrevistas de que tenho participado: Não há resposta certa para esta pergunta. O meu ponto chave é mostrar pra cada família que deve-se buscar um equilíbrio que compete somente a cada família encontrar. Os filhos são únicos, pessoas únicas, desafios únicos. Tem gente que só consegue trabalhar sob pressão. Tem gente que não suporta ser cobrado. Como pai, eu tenho que falar pros filhos tomarem banho, escovarem os dentes, fazerem a lição de casa, etc., etc., etc. A gente tem que mandar fazer! A vida cotidiana mantém as crianças numa bolha de inércia e improdutividade assustadora. Então, tem que cobrar, tem que mandar fazer sim! Mas, até o ponto que isso não destrua as relações.  Eu não destruía apenas a minha relação com os filhos, mas era um movimento de auto mutilação. Você não imagina como eu ficava mal…

 

Clube do Leitor: Apesar de tratar de tênis, o livro dialoga com qualquer família atravessada pela lógica da performance e da cobrança constante. Na sua visão, o que essa obsessão contemporânea por resultados está fazendo com a infância?

Eder Miranda: Que pergunta difícil! A gente vive uma era de pais superprotetores sim. Independente da classe social, da condição financeira, damos tudo para os filhos. Tudo o que eles querem, nem sempre tudo o que precisam.  Eu diria que a grande maioria não cobra nada. A grande maioria priva os filhos da frustração, do descontentamento. Poucos ouvem não. É muito rico para o desenvolvimento do caráter da criança o entendimento claro da obrigatoriedade sim de cumprir as tarefas, de tirar notas boas, de conviver com as pessoas, de respeitar os mais velhos, de desenvolver os pilares da religiosidade, da fé, do amor ao próximo. Acima de tudo, de fazer o que tem que ser feito.  Então, errado está aquele que não cobra. Mas errado está também o que cobra em demasia. Encontremos o ponto ideal com os nossos filhos. E, acredite, o ponto ideal é quando a corda está bem esticada, quase no rompimento. Se me entende, cobramos os filhos na infância, na adolescência, porque certamente serão muito cobrados pelo mundo na vida adulta. 

Na vida empresarial, já me deparei muitas vezes com absurdos de pai levar o filho pra entrevista de emprego e querer participar ou esperar terminar pra perguntar pro entrevistador o que achou. OU, ir no dia da rescisão do contrato pra confirmar que tudo estava sendo pago corretamente.  Esse é o mesmo tipo de pai que vai brigar na quadra porque o juiz falou falta! Cartão amarelo! Bola fora ou bola dentro!

O esporte imita a vida!

 

Clube do Leitor: Depois de toda essa jornada de autocrítica e reconstrução, qual foi a principal lição que o esporte — e principalmente seu filho — te ensinaram sobre amor, escuta e presença?

Eder Miranda: A maior lição de todas é uma frase : “Aproveite a jornada” – Aproveitar o tempo que temos em família, almoçar juntos reunidos à mesa, explorar lugares novos e celebrar as conquistas. Conquistas que não são o placar favorável do jogo, mas os momentos que passamos juntos e compartilhamos o amor. Isso sem duvida, é o mais importante pra mim. Independente de estar no esporte ou não, nós cuidamos dos filhos quando bebês, eles começam a falar, depois logo crescem, logo vão embora.  E o esporte deu uma oportunidade ímpar de estarmos juntos intensamente durante um tempo maior.

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