Entrevista:
Wilgner San

Clube do leitor: Qual foi a inspiração por trás da criação de “Dona Teresina e sua vizinhança”? Como surgiu a ideia de retratar a vida dos brasileiros que se reúnem na porta de casa e fazem um noticiário particular do bairro?

Wilgner San: Desde criança, observava comportamentos, disputas e resoluções entre as pessoas; e ouvia, muito mais do que falava. Durante encontros familiares, escutava atento as histórias e causos, guardando na memória a força teatral de cada frase proferida e as reviravoltas apresentadas por narradores diversos e esquipáticos.
A obra, que surgiu por causa de uma atividade de escrita criativa, no Ensino Médio, é uma oportunidade de refletir sobre aquilo que o, assim chamado, progresso ceifa cotidianamente: o convívio cara a cara. Não deixa de ser, também, um oportuno registro literário de um lugar fora do tempo: a memória.

Clube do leitor: Os personagens do livro são extremamente divertidos e cativantes. Eles foram inspirados em pessoas reais? Se sim, como foi o processo de transformar esses indivíduos em personagens literários?

Wilgner San: É inevitável, toda pessoa de papel e tinta é um reflexo ou refração de uma pessoa de carne e osso. Uma vez que a obra usa e abusa do realismo mágico, as personagens chegam para o leitor como caricaturas de algo ou alguém, curiosamente, para os mais incautos, jamais de si.

Clube do leitor: A escrita do livro é muito fluida e consegue capturar a essência do cotidiano de forma realista e engraçada. Como foi o processo de construção do enredo e dos diálogos para garantir essa leveza na narrativa?

Wilgner San: Flui e captura, pois é uma narrativa que tenta preservar, linguisticamente, um jeito de contar histórias do interior da Bahia, marcado por um léxico estrambólico e diálogos muito teatrais, dramáticos. Ao elevar, intencionalmente, as intrigas minúsculas de uma pequena vizinhança à quinta potência, o enredo ironiza os desafios da convivência.

Clube do leitor: O final do livro é surpreendente e fecha a história com chave de ouro. Como foi a escolha desse desfecho?

Wilgner San: Curiosamente, o final foi proposto pelas próprias personagens, as quais recusavam a morte. Durante a escrita, tentei matá-las várias vezes, encerrar as disputas, propor uma trégua, mas nenhum desses recursos parecia satisfatório. Demorei a perceber que a paz, a empatia e a compreensão não se encaixavam sem a presença de seus opostos nesta trama. Aparentemente, equilíbrio é tudo — já diziam isso na Grécia Antiga.

Clube do leitor: Dona Teresina e sua vizinhança é um livro que mistura humor, loucura e exagero de uma forma única. Qual foi a sua intenção ao criar essa atmosfera e como você acredita que os leitores vão reagir a essa combinação de elementos?

Wilgner San: O filtro do exagero, acrescentado pelo realismo mágico, atinge a todos os elementos da obra, permitindo que o leitor olhe para o espelho com mais facilidade, como se estivesse na divertida casa de espelhos de um circo, pois o reflexo recheado de ruído sempre parece ser do outro e não de si. Não sou eu, aqui, é a minha vizinha.

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