A poética do resíduo e a pedagogia da alteridade
A literatura infantil, muitas vezes relegada ao espaço do puramente lúdico ou didático, revela-se, sob um olhar mais atento, como um terreno fértil para a investigação das estruturas sociais e das pedagogias morais que moldam o sujeito contemporâneo. Em Clic e o sol que brilha por dentro (2025), Thiago Duarte Venâncio apresenta uma narrativa que, embora revestida pela simplicidade do gênero, propõe uma reflexão sobre a mecanização dos afetos e a possibilidade de reencantamento do cotidiano através da alteridade.
O livro narra a construção de Clic, um pequeno robô concebido por Dona Alice a partir de “peças e dispositivos descartados” (uma torradeira, um toca-fitas, placas eletrônicas velhas). A escolha desses materiais não é irrelevante; ela evoca uma poética do resíduo, sugerindo que a transformação social e a construção de novos sentidos podem emergir justamente daquilo que a lógica do consumo e do descarte considerou obsoleto. Clic não é apenas uma máquina; é uma metáfora da própria subjetividade humana em meio à saturação tecnológica. A “falha” em seu painel solar, que não o recarrega com a luz física, mas sim com a “energia das palavras boas e dos gestos gentis”, desloca o funcionamento do personagem do campo puramente técnico para o ético.
A cidade onde Clic circula, marcada pela pressa, pelo isolamento nos dispositivos eletrônicos e pela indiferença, onde “ninguém parava para dizer um ‘bom dia'”, é um microcosmo da desintegração dos laços comunitários na modernidade tardia. Aqui, a literatura cumpre uma função social: a de agir como um dispositivo de resistência simbólica. O “baixo nível de gentileza” que ameaça apagar o robô funciona como um alerta sobre a própria exaustão da empatia em uma sociedade mediada por telas.
A entrada de Sofia na narrativa estabelece o contraponto necessário para o movimento dialético da obra. Se o sistema social (a cidade apressada) tende ao apagamento do humano, a infância (representada por Sofia) surge como o lugar da observação e da escuta. A relação entre a menina e o robô não se dá pela utilidade, mas pelo reconhecimento. Quando ela afirma que ele é “o robô mais legal”, ela não está apenas fornecendo “combustível”, mas validando a existência do outro. Essa dinâmica reitera a ideia de que o sujeito só se constitui plenamente na relação com o outro, uma premissa central para pensarmos a função da linguagem como prática de ligação e não apenas de informação.
A estrutura da narrativa segue um arco de transformação que culmina em uma mudança institucional na cidade, a diretora da escola que proíbe telefones e institui o “Dia da Família”. Embora essa solução possa parecer uma utopia simplificadora, ela revela a tensão ideológica que o texto carrega: a necessidade de intervenções concretas na estrutura social para que o afeto possa, de fato, circular.
Clic e o sol que brilha por dentro é uma obra que se situa no intervalo entre a fábula moral e a crítica cultural. Ela provoca o leitor contemporâneo a questionar as fontes de sua própria “energia”. Em um mundo que valoriza o “rápido e o prático”, a história de Thiago Duarte Venâncio reivindica o valor do desnecessário, do gesto miúdo e da atenção gratuita. É um convite para reconhecermos que o “sol” que realmente sustenta a vida social não está no céu, mas na qualidade das interações que somos capazes de sustentar uns com os outros. A relevância da obra reside, portanto, nessa capacidade de lembrar que, mesmo em uma era de obsolescência programada, o afeto permanece sendo a única tecnologia verdadeiramente durável.
Marília Costa
Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia





