A literatura, quando pensada em sua função social e histórica, frequentemente se depara com o desafio de mediar a tensão entre o presente imediato e as projeções de um porvir que parece escapar por entre os dedos. Em Vida com Valor: Mudando o Futuro da Humanidade, Alfredo Sá Almeida propõe um exercício que, embora se afaste do terreno da ficção literária stricto sensu, mobiliza uma dicção ensaística profundamente preocupada com a construção de sentidos em um mundo fragmentado. O problema central da obra reside na clivagem ontológica que o autor estabelece entre o “Homem” e o “Ser Humano”, sugerindo que a humanidade atravessa um estágio de descaracterização em face de interesses mercantis e financeiros.
Sá Almeida não se limita a um diagnóstico passivo; sua linguagem é marcada por uma convocação constante ao engajamento e à participação coletiva. O texto não se pretende neutro; ele é uma ferramenta de intervenção que busca reduzir a resistência mental diante da incerteza e ajustar a subjetividade às novas realidades de um século XXI assolado por crises de saneamento, desigualdades abismais e o espectro do terrorismo.
Um dos eixos temáticos mais potentes da obra é a discussão sobre a alteridade e a singularidade, amparada por diálogos com pensadores como Achille Mbembe. Ao questionar “por que julgamos que a diferença seja um problema?”, o autor desloca a análise do indivíduo isolado para o campo das relações sociais e políticas.
A forma fragmentária do livro, que transita entre o comentário econômico, a citação filosófica e o apelo ético, reflete a tentativa de reconstruir um “mapa da violência” e, simultaneamente, um guia de valores humanos universais. Essa escolha estilística revela uma tensão entre a desorganização do mundo contemporâneo e o esforço da inteligência humana em alinhar propósitos coletivos.
Nesta construção estética situada, o autor identifica que a “morte do pensamento crítico” é um risco que só se materializará se houver passividade diante do pseudodesenvolvimento global. A obra se insurge contra o que considera interesses mesquinhos de lideranças desfocadas da harmonia global. O livro busca instituir um novo pacto de convivência baseado na integridade, na honestidade e na paz, entendidos não como abstrações metafísicas, mas como fundamentos indispensáveis para a sobrevivência da espécie.
Vida com Valor provoca no leitor contemporâneo um estranhamento necessário em relação à “normalidade” do cotidiano opressor. Ao abordar temas como o “lugar do estrangeiro” e o “fetichismo da linguagem” produtivista, Alfredo Sá Almeida constrói uma narrativa de esperança fundada na consciência coletiva.
A relevância da obra reside precisamente nessa capacidade de transformar a angústia diante do futuro em um laboratório de novas possibilidades éticas. O impacto intelectual da leitura está no reconhecimento de que o futuro não é um cenário inevitável a ser aguardado, mas uma construção deliberada, um compromisso assumido entre a inteligência e o afeto. No abismo das linguagens ordenadas da técnica, o livro de Sá Almeida abre um espaço de respiro, convidando o Ser Humano a finalmente ocupar o lugar que a história lhe reclama.
Marília Costa
Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia





