Livro
O avesso da vitória: a gramática do afeto em Ponto a Ponto

Ficha Técnica

Título: Ponto a Ponto
Autor: Eder Miranda
Editora: Labrador

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A publicação de Ponto a Ponto, de Eder Miranda, apresenta-se menos como um relato técnico sobre o esporte e mais como uma investigação sensível sobre as complexidades do afeto e a performance das expectativas parentais. O livro, que carrega o subtítulo “Um manual de sobrevivência para pais de atletas”, desdobra-se em uma narrativa que tateia as fronteiras entre o apoio genuíno e a projeção narcísica, revelando como o ambiente competitivo do tênis, descrito pelo autor como um esporte de “elite” e não meramente de “ricos”, atua como um catalisador de tensões familiares e crises de identidade.

O eixo central da obra não reside na vitória em quadra, mas na “redenção” de um pai que reconhece ter se perdido no papel de técnico. Miranda mobiliza uma escrita que transita entre o testemunho pessoal e a reflexão pedagógica, expondo o que ele denomina como a “farsa das redes sociais” e o “ritual da destruição no carro”. Essa honestidade brutal permite que o texto escape do tom professoral dos manuais de autoajuda convencionais, assumindo uma dicção que privilegia a vulnerabilidade.

A estrutura, organizada em fragmentos que rememoram desde o impacto de ídolos como Roger Federer até o cotidiano amargo das derrotas infantis, espelha o próprio processo de desconstrução e reconstrução da paternidade. Há uma tensão latente entre o desejo de sucesso do filho e a necessidade de preservação da infância, um conflito simbólico que o livro não busca resolver com fórmulas prontas, mas sim iluminar por meio do arrependimento e da experiência.

A função da linguagem em Ponto a Ponto é a de tornar visível o que a obsessão costuma ocultar. Ao narrar a passagem de uma postura controladora para a do “monge tibetano da arquibancada”, Miranda discute a relação entre forma e conteúdo: a desorganização emocional do pai-técnico reflete-se nos momentos de crise narrados, enquanto a conquista de uma “sabedoria do terceiro filho” aponta para uma conciliação estética e afetiva. O autor não apenas conta sua trajetória; ele interpreta como o discurso da competitividade pode silenciar o amor, transformando o lazer em trabalho e a criança em um objeto de investimento.

A relevância de Ponto a Ponto no cenário contemporâneo reside em sua capacidade de provocar o leitor a olhar para além da superfície do desempenho. Miranda oferece uma leitura que dialoga com a necessidade de repensar as instituições sociais, como a família e o esporte, sob a ótica da alteridade e do cuidado. É uma obra que, ao expor as feridas de uma jornada pessoal, acaba por mapear as patologias de uma sociedade obcecada pela vitória a qualquer custo, servindo como um espelho crítico e necessário para todos aqueles que, no afã de amar, acabam por esquecer como se ama.

Marília Costa
Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia

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