A escrita de Edy Tavares, em Um amor cigano, parece emergir de um solo onde a ancestralidade e a ficção se entrelaçam em um movimento de busca e de afirmação identitária.
Na narrativa, o que se apresenta ao leitor não é apenas a construção de um cenário bucólico, mas a materialização de um espaço simbólico onde a cultura cigana é apresentada em sua dimensão de resistência e preservação de saberes.
Há uma escolha estética que privilegia a sensorialidade: o aroma do pão no forno de barro, o frescor do riacho, o colorido do amanhecer. Essas imagens não são meramente decorativas; elas fundamentam o que Terry Eagleton descreve como a função da linguagem na construção de uma prática histórica e ideológica, que aqui se volta para a dignificação de uma comunidade frequentemente marginalizada.
Logo de início, o problema que se apresenta reside na tensão entre o indivíduo e a coletividade, mediada pela tradição. A figura de Camilo, ao despertar com o peso de uma “culpa” e de um “sentimento de vazio”, introduz uma dimensão psicológica que confronta o prazer momentâneo com as exigências de um alinhamento espiritual.
A fala de Mãe Carmem “é isso que acontece quando o desejo do corpo não está alinhado com os desejos da alma” funciona como um eixo crítico. Aqui, a obra parece questionar os limites da liberdade individual dentro de uma estrutura social regida pela magia natural e pelo respeito aos ciclos da natureza. A subjetividade de Camilo é, portanto, um campo de batalha onde as escolhas estilísticas da autora buscam dar voz a um conflito de pertencimento.
O problema central que a obra mobiliza é a fragilidade da tradição diante da iminência da ruptura. A figura de Mãe Carmem, enquanto guardiã da marca e líder perseguida, encarna a resistência de um matriarcado que não se sustenta apenas na linhagem, mas na interpretação sábia dos signos.
A relação de Alba, a estrangeira salva no acidente na estrada, e de Camilo, o filho adotivo impetuoso, estabelece uma dialética entre o direito de sangue e o direito do reconhecimento espiritual. Aqui, a forma literária parece espelhar a estrutura do próprio clã: um círculo que busca proteção contra o “antigo clã” opressor, mas que agora enfrenta uma fissura interna.
As tensões ideológicas manifestam-se no diálogo entre o sagrado e o profano, o visível e o invisível. A dedicatória do livro já antecipa esse hibridismo, ao situar a obra sob a inspiração de Vó Maria Conga, uma entidade que guia a mão da escritora. Esse gesto desloca a noção de autoria puramente individual para uma zona de compartilhamento espiritual, desafiando as convenções da literatura ocidental canônica. A obra, assim, não se limita a contar uma história de amor, mas a documentar um conflito simbólico entre a modernidade desenraizada e a persistência do mito.
Um amor cigano provoca no leitor contemporâneo uma reflexão sobre a necessidade de reconexão com o que é essencial. A relevância literária de Edy Tavares reside na coragem de ocupar o espaço da escrita para dar visibilidade a vozes que, historicamente, foram silenciadas ou estereotipadas.
Marília Costa
Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia





