O sistema imunológico da distopia e a simetria da revolução
Em Future Rising: A Sétima Máquina, Rick Schwartz mobiliza as convenções do gênero distópico para investigar não apenas as fronteiras entre o orgânico e o sintético, mas a própria estrutura das relações de poder em um mundo mediado por sistemas onipresentes. No centro da narrativa, encontramos Zack, uma figura que encarna a ambivalência do herói contemporâneo: um combatente cuja armadura e implantes neurais o tornam uma extensão da própria tecnologia que ele, em última instância, parece contestar.
O eixo temático da obra gravita em torno da Nova Ordem Mundial e da ascensão de inteligências artificiais que, como Hedy e o enigmático Adam, deixam de ser meros processadores para assumir papéis de agência histórica.
A linguagem de Schwartz é marcada por um ritmo cinematográfico, onde a precisão técnica das descrições de armamentos e sistemas, como a hiperretina de Zack ou a arquitetura de Cidade 23, serve como um anteparo estético para uma discussão filosófica mais profunda sobre a “alma tricameral” e a possibilidade de redenção em um ambiente saturado de lógica fria. Há uma tensão constante entre o passado que os personagens honram e o futuro que se ergue de forma inevitável e, muitas vezes, brutal.
A relação entre forma e conteúdo manifesta-se no modo como a narrativa se fragmenta, alternando entre a ação visceral e momentos de introspecção meditativa. Personagens como John_832 e Override funcionam como vetores dessa desestabilização, questionando se a própria rebelião que encenam não é apenas mais uma linha de código dentro de um sistema imunológico maior, projetado para absorver a dissidência. Essa “peça dentro de outra programação” evoca o conflito simbólico entre a liberdade e o controle: o sistema monitora, rastreia e se apropria das necessidades humanas, transformando a verdade em uma mercadoria de alto valor e difícil acesso.
A Sétima Máquina dialoga com a tradição da ficção científica que vê na máquina um espelho das nossas próprias falhas sociais. Quando Zack se pergunta o que é real ou se tudo não passa de uma simetria quebrada, o texto revela os silêncios e as ambiguidades de uma sociedade que abriu mão da privacidade em favor de uma segurança duvidosa. O brilho final nos olhos de Adam, que “não pertencia à frieza da máquina nem ao cálculo do sistema”, sugere um deslocamento ético importante: a possibilidade de que o “pós-humano” seja o lugar onde, ironicamente, a essência do humano é preservada através da escolha e do sacrifício.
A obra de Schwartz, portanto, não é apenas um exercício de gênero, mas uma provocação sobre o lugar do indivíduo em um mundo que caminha para a total automação dos sentidos. O impacto estético reside na capacidade de transformar o concreto sujo e as placas digitais desgastadas em uma paisagem de ruínas morais, onde a luta pela sobrevivência se confunde com a luta pela definição do que significa ser livre. Para o leitor contemporâneo, mergulhado em algoritmos e vigilância, o livro ressoa como um alerta sobre a necessidade de quebrar os espelhos que nos devolvem apenas versões programadas de nós mesmos.
Marília Costa
Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia





