O livro Quando o processo me pegou pelo braço: com licença, estou me reencontrando, de Tati Riceli, apresenta-se ao leitor não como um inventário de certezas, mas como uma cartografia de vulnerabilidades. Nas primeiras páginas, o que se delineia é a construção de um percurso de subjetivação que utiliza a escrita como dispositivo de mediação entre o real do corpo e o simbólico da linguagem. Ao se afastar da retórica de autoajuda e dos manuais de prescrição estética, a obra mobiliza uma dicção que privilegia o “processo”, termo que aqui ganha contornos de personagem, como o intervalo necessário para a reconstrução de si.
Riceli estabelece, logo no prólogo, um pacto de leitura pautado na honestidade do fracasso e na recusa do controle absoluto. Quando a narradora afirma que “sempre preferiu a piada à exposição”, ela desvela a ironia como uma estratégia de defesa contra a crueza da realidade. No entanto, é precisamente a falha dessa estratégia, simbolizada pela “calça que não fechava” e pelo “espelho que já não mentia”, que impulsiona o texto para fora do domínio do sarcasmo e para dentro da investigação afetiva.
A estrutura narrativa proposta, que inclui um “Dicionário das Emoções Possíveis”, sugere um esforço de renomeação do mundo. Ao definir “Coragem” como o instante em que a alma avança apesar do tremor do corpo, Riceli retira o termo do campo da abstração heroica e o devolve à experiência cotidiana do sujeito. O texto tenta subverter a lógica do consumo rápido e da eficácia corporativa, universo de onde a autora provém, para instaurar um tempo de “escuta e acolhimento”. A escrita deixa de ser registro para se tornar, em suas palavras, um “gesto de amor”.
A autora mergulha em uma arqueologia do afeto familiar. A cozinha é apresentada como o centro gravitacional de uma existência coletiva, onde “problemas se dissolviam no vapor da panela de pressão”. A memória da infância é recuperada por meio de sinestesias, o cheiro do alho, o som da pergunta “já fez o suco?”, que funcionam como âncoras de pertencimento. O “suco” não é apenas um alimento, mas uma metáfora para o cuidado. Essa dimensão externa da obra, que conecta a história privada a uma cultura de fartura como sinônimo de afeto, revela como a identidade é forjada em diálogos com as tradições e os silêncios que atravessam as gerações.
A transição entre a “Tatiana do mundo corporativo” e a “Tati dos íntimos” revela a tensão entre a performance social e a busca por uma essência que não precise se “diminuir para caber”. A obra toca em feridas contemporâneas, como a ditadura da estética e a síndrome da exaustão, propondo o que a autora chama de “detox do autojulgamento”. Ao mencionar a sobrevivência à cirurgia bariátrica e ao efeito sanfona, Riceli não busca a vitimização, mas a validação de uma trajetória que reconhece a dor sem transformá-la em mercadoria.
Em termos de impacto para o leitor contemporâneo, o livro de Tati Riceli provoca um deslocamento necessário. Ele retira o foco do resultado final, o “corpo perfeito” ou a “vida resolvida”, para iluminar o trajeto, os tropeços e as “agachadinhas malfeitas”. É uma narrativa que, ao se assumir como “ponte para alcançar jornadas semelhantes”, cumpre uma função social de partilha de experiência. A relevância literária de Quando o processo me pegou pelo braço reside, portanto, na capacidade de transformar o relato íntimo em uma reflexão sobre a possibilidade de permanência e afeto em um mundo marcado pela efemeridade e pela cobrança incessante. Riceli nos lembra de que o reencontro consigo mesma é, antes de tudo, um ato de resistência contra o apagamento da própria história.
Marília Costa
Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia





