Livro
O avesso do mito: a história ínfima de Azaria

Ficha Técnica

Título: O Décimo Terceiro Apóstolo
Autor: Ricardo Colares
Editora: Viseu

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A literatura, em sua dimensão mais profunda, costuma ocupar as fendas deixadas pelos grandes relatos históricos, e é precisamente nesse espaço de indeterminação que Ricardo Colares situa O décimo terceiro apóstolo (2025).

Ao propor a trajetória de Azaria, um jovem de treze anos que presenciou a crucificação de Cristo, a narrativa não se rende ao mero registro religioso; antes, busca investigar a formação de uma subjetividade em meio ao colapso de certezas milenares.

O livro se apresenta como uma reflexão sobre o homem comum que, destituído de protagonismo institucional, torna-se o guardião de uma memória marginal e afetiva do cristianismo primitivo.

A abertura da obra já estabelece um eixo interpretativo claro: a fé como uma construção que emerge do desconforto e da dúvida, e não da adesão passiva a dogmas. Colares utiliza um narrador que, embora sintonizado com o rigor do solo histórico, privilegia a perspectiva íntima de Azaria.

Há uma atenção minuciosa à materialidade do mundo, o cheiro de suor e especiarias de Jerusalém, o linho grosseiro das túnicas, a aspereza das pedras calcárias, o que confere à narrativa uma densidade sensorial que ancora o conflito metafísico na realidade proletária da época.

O personagem Azaria funciona como uma metonímia dos silenciados pela história oficial. Filho de um curtidor de couro, sua origem social impõe um horizonte de expectativas que a experiência estética e traumática do Gólgota rompe definitivamente.

O narrador retira o sagrado do pedestal dos sacerdotes e o devolve ao homem comum, sugerindo que a verdadeira transformação histórica ocorre na escala do indivíduo anônimo.

Estruturalmente, o texto se organiza em torno de perguntas que o protagonista dirige a si mesmo, transformando a fé em uma “estrada solitária” e uma conversa sem intermediários. Esse movimento de interiorização é o que retira a obra do lugar comum das narrativas bíblicas tradicionais, revelando como as grandes lacunas históricas são processadas, antes de tudo, no silêncio e no rearranjo das subjetividades periféricas à história oficial.

Ao optar por um protagonista que não é um herói documentado, mas que “poderia ter existido”, Colares tensiona as fronteiras entre o real e o ficcional, convidando o leitor contemporâneo a um exercício de alteridade.

A relevância da obra reside justamente nessa capacidade de humanizar o mito e investigar as “mãos calejadas” que sustentaram as primeiras comunidades cristãs. O décimo terceiro apóstolo provoca uma reflexão necessária sobre o lugar da memória individual frente às grandes narrativas de poder, questionando se somos apenas parte de uma “multidão” ou se somos capazes de sustentar a fidelidade ao que vimos e ouvimos no silêncio do anonimato.

 

Marília Costa

Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia

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1 Comment

  1. Ricardo disse:

    muito obrigado pela resenha. você conseguiu realmente captar a alma da obra.

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