A literatura, quando se debruça sobre o que reside além da fronteira da zona limítrofe do humano, frequentemente sucumbe à tentação de replicar as estruturas morais e teológicas que sustentam o mundo metafísico. Em Seremos – Anachnu Nehiyeh, de PE Larsen, somos confrontados com uma proposta que busca, logo em seu preâmbulo, romper com essa tradição de conforto.
A obra não se apresenta como um tratado doutrinário ou uma revelação espiritual consolidada, mas como um exercício de imaginação que desafia a “caixa das tradições”. O eixo central não é a morte em si, mas a senciência que emerge dela, uma consciência que, despojada de corpo e de referências espaciais, precisa reconstruir o sentido da existência em meio ao nada.
O narrador do primeiro capítulo, “Plenitude”, inaugura a narrativa com uma saudação que é, ao mesmo tempo, íntima e desconcertante. Há uma consciência da dificuldade comunicativa: a voz que emana “de algum lugar da linha do tempo” não busca apenas relatar um estado, mas preparar o leitor para uma jornada de suspensão de certezas.
A linguagem, embora acessível, carrega a precisão de quem tenta nomear o inominável. O uso de termos como “hiato”, “zero” e “senciente” aponta para uma tentativa de conferir rigor a uma experiência que aniquila as categorias humanas de tempo e espaço. A estrutura formal, que prevê a alternância de narradores marcada por linhas físicas na página, espelha a própria fragmentação da identidade que a obra se propõe a investigar.
A relação entre forma e conteúdo em Seremos revela-se na tensão entre o “não sentir” e a persistência dos hábitos humanos. É sintomático que o narrador, mesmo sem corpo, sinta “fome”, uma fome que o transporta para lembranças de conforto e cuidado materno.
Essa escolha estilística e temática demonstra como a subjetividade está arraigada em construções sociais e biológicas que não se dissolvem imediatamente com o fim da vida biológica. A obra sugere que a senciência pós-morte é, inicialmente, uma luta contra os resquícios da cultura e da memória que insistem em projetar formas onde há apenas vazio.
Sob a ótica de uma prática histórica e ideológica, o livro de Larsen pode ser lido como um reflexo das angústias contemporâneas diante do esgotamento das grandes narrativas religiosas e científicas. Ao classificar as buscas por respostas nessas instâncias como “bobagem”, o texto assume uma posição política de resistência ao pensamento dogmático.
A obra não é neutra; ela se situa no vácuo deixado pela crise das certezas, propondo que a verdade não é algo a ser descoberto em um sistema externo, mas uma construção precária e subjetiva que atravessa “tramas temporais”.
Seremos apresenta-se como uma obra de relevância para o leitor contemporâneo por sua recusa em oferecer respostas fáceis ou consolo metafísico. Seu impacto estético reside na capacidade de transformar o vazio em um palco de experimentação discursiva.
Marília Costa
Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia





