Livro
O lirismo do afeto frente às marcas da rejeição

Ficha Técnica

Título: O Segredo das Mariposas
Autor: Maria Nivalda
Editora: Publicação independente

Comprar           

A literatura frequentemente se debruça sobre as complexidades das relações familiares para examinar aquilo que nos constrói e, por vezes, nos machuca. Entre o peso do abandono e a potência do acolhimento, os vínculos de parentesco revelam a fragilidade humana e a capacidade de regeneração pelo afeto. É nesse horizonte de sombras e delicadezas que se move O Segredo das Mariposas, romance que explora o aprisionamento em ciclos de dor e a busca pela liberdade de traçar o próprio caminho.

A narrativa acompanha Elis durante os sete dias de luto pela perda de Vó Nana, a mulher que a criou e que se torna uma figura inesquecível na obra. É a partir dessa ausência que a protagonista confronta a crueza da rejeição materna e as marcas profundas de sua trajetória, representadas tanto pela dor do abandono quanto pela microtia, condição física que carrega no corpo. Em contrapartida, o lirismo da ancestralidade e da fé traz o contraponto necessário, mostrando como o acolhimento simples e cotidiano daqueles que reconhecem a dor alheia é capaz de resgatar e oferecer abrigo.

A sensibilidade para tratar de temas como inclusão, preconceito e humanidade não surge por acaso. A autora, Maria Nivalda, constrói sua ficção a partir de um olhar apurado sobre as dinâmicas sociais e emocionais do ser humano. Natural de São João del Rei, Minas Gerais, ela é professora universitária aposentada com uma sólida trajetória acadêmica: graduou-se em Psicologia pela UFSJ, concluiu doutorado em Administração pela UFMG com tese focada na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho e realizou pós-doutorado em Psicologia na University of Greenwich, na Inglaterra, onde pesquisou o preconceito e o contato intergrupal.

Essa bagagem intelectual e científica, cujas publicações são referências nos estudos sobre processos de inclusão e exclusão, fundamenta a maturidade com que Maria Nivalda constrói seus personagens. O rigor de quem estudou as margens da aceitação social transforma-se, na ficção, em uma escrita lírica e empática. Em sua estreia na narrativa literária, após ter iniciado seu percurso ficcional com o texto Escolhas e Destinos, a autora mobiliza a literatura para traduzir a complexidade dos afetos com sobriedade e poesia.

Ao entrelaçar a crueza da perda com a beleza do amparo, O Segredo das Mariposas estabelece um diálogo profundo sobre as feridas que herdamos e as escolhas que nos libertam. Mais do que registrar a dor do luto, o romance convida o leitor a perceber que, mesmo diante das marcas mais difíceis da rejeição, o afeto e a memória permanecem como guias para que cada indivíduo possa, finalmente, voar sob o próprio luar.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *